A bem da Nação

INDOCHINA – 3

 


 


 


Baixo e franzino, o nosso guia no norte do Vietname foi buscar-nos ao hotel em Hanói e induziu-me como primeiras impressões a insignificância, a fome e o subdesenvolvimento.


 


Falando fluentemente castelhano (fiquei então a saber que estávamos programados para visitar o Vietname de alto a baixo na companhia de um grupo de 16 espanhóis e um brasileiro), apresentou-se apenas como Juan. Para quem já tinha tido em Israel um guia judeu que naquele «dia do Pai» se chamava José, não liguei importância à aberração onomástica e preparei-me para ouvir aquele insignificante «unhas-de-fome» enquanto o autocarro se dirigia para o Mausoléu de Ho Chi Minh. E lá chegados, fomos arrebanhados num semi-círculo para que ele nos dissesse que...


 


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... conta a lenda que o mítico pássaro Viet, «Chim Lac», desceu dos Himalaias para se fixar nas planícies e aí crescer livremente sem ter que continuar subjugado a intempéries e a ditames alheios; mas teve sempre que travar batalhas para afastar cobiçosos, a começar pelos chineses que ainda hoje não desistiram de dominar o mundo, começando precisamente pelas planícies do pássaro Viet. E tantas têm sido as batalhas que os protegidos de «Chim Lac» têm sido obrigados a travar em defesa da paz em que querem viver, que acabaram por se especializar na guerra ganhando assim a justa fama de imbatíveis. Passaram os séculos em defesa permanente contra os que se intitulavam os Senhores do Império do Meio... até que do Sul chegou um povo estranho com grandes narizes que apenas queria fazer comércio. A esse o receberam em paz os protegidos do pássaro Viet e não tardou muito para que tais novos amigos os ajudassem na defesa contra os chins. Diziam-se súbditos dum reino longínquo de seu nome Portugal e fizeram sempre comércio em paz. Mas também fizeram filhos e foram ficando até que um dia falaram de um Deus que não era o Senhor Buda. E falaram, falaram... e a muitos encantaram. Trouxeram sacerdotes desse novo Deus e continuaram a falar de paz e a ajudar contra os cobiçosos das planícies do pássaro Viet pelo que também lhes foi dada guarida no Vietname. A esses sacerdotes chamavam Padres e foi um deles, de seu nome Alexandre, que fez o Dicionário Vietnamita Português Latino. Puderam então os protegidos de «Chiam Lac» libertar-se dos caracteres chineses passando a escrever do modo que os novos amigos ensinaram e cortando mais uma dependência dos chins. O alfabeto latino passou a ser um instrumento da independência vietnamita e isso se deve aos amigos do comércio e do novo Deus. Mas os Padres portugueses começaram a ser substituídos por franceses e então as relações azedaram-se pois os novos mensageiros estavam a impor-se por meios mais activos. A rejeição começou e a França enviou militares para proteger os seus Padres. Eis que os vietnamitas tiveram que abrir nova frente de combate que se concluiu com a conquista da base francesa de Dien Bien Phu, já em pleno séc. XX. Foi em inferioridade que a França negociou a sua saída acabando mesmo por desistir de todo o território a que chamava Indochina (Vietname, Camboja e Laos). Mas conseguiu dividir o Vietname em Norte e Sul de modo que um poderia ser comunista e o outro se manteria alinhado com o Ocidente. Mas os filhos do pássaro Viet não podiam ver a sua pátria dividida e encetaram o processo de reunificação. Foi nessa circunstância que os americanos se prontificaram a proteger a metade Sul e todos sabemos como em 1975 se conseguiu a reunificação do país. Foi então que os chineses, a pretexto dos problemas cambojanos, se aprontaram para o regresso e foi nesse exacto então que os vietnamitas tiveram que lhes fazer novamente frente. A paz foi assinada já na década de 80 do século passado.


 


E agora, minhas Senhoras e meus Senhores, podem passear durante uma hora pelos jardins mas não podem entrar no Mausoléu de Ho Chi Minh.


 


(continua)


 


Lisboa, 4 de Dezembro de 2014


 


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Henrique Salles da Fonseca


(navegando no Mékong)

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