A bem da Nação

INDOCHINA – 2

Chegar a Hanói era para mim qualquer coisa tão estranha – para não dizer mesmo perigosa – como entrar em Pyongyang vindo de Seul, o mesmo que se poderia imaginar de um judeu em Berlim no tempo de Hitler ou um comunista em Lisboa com Salazar em S. Bento. Para mim, o Sol não tinha hipóteses de brilhar naquelas paragens dominadas pelas trevas. Chegando à noite, a escuridão fazia todo o sentido nas minhas tenebrosas expectativas e as luzes da aerogare soavam-me a falso apesar do sorriso com que fora beneficiado pela minha vomitória vizinha de cadeira na última fila do avião plúmbeo. E, no entanto, eu estava ali de livre vontade. Masoquismo, aventureirismo, inconsciência? Não, apenas confiança nos sensatos que me acompanhavam e que tudo tinham planeado.


 


E quando os nossos amigos Amélia e Pepe inadvertidamente se dirigiram a um guichet errado, foram rigidamente instados por uma orgulhosa guarda de fronteira impecavelmente fardada e de chapéu à Elvis do modelo soviético a fazerem meia volta encaminhando-se para o rendoso balcão dos Vistos que pinga à razão de us$ 45,00 per capita para o erário público do país. Um pouco a trás, a Graça e eu não passámos pela reprimenda e lá nos pusemos frente ao guichet apropriado. Afinal, os guardas fronteiriços dos Vistos eram amáveis e eu pensei que poderiam prender-nos e torturar-nos mas que o faziam com um sorriso simpático. Humor sádico? Talvez não. Pareceu-me que estavam ali a desempenhar a patriótica missão de sacarem umas massarocas aos capitalistas imperialistas que se aventuravam a meter o nariz no seu querido pais. Só isso e nada mais.


 


Chapéu à Elvis.jpg


Chapéu à Elvis


Aliviados do peso dos Dólares na exacta quantidade legalmente fixada e de duas fotografias, lá fomos à das malas que já rolava em tapete tão barulhento ou tão silencioso como os dos nossos aeroportos. Não se perderam as bagagens e os carrinhos em que as transportámos até à rua tinham todas as rodas a funcionar. E cá fora, passada a silenciosa Alfândega, estava uma guia turística ostentando o meu nome como se eu fosse o organizador daquilo tudo, o tipo importante e não, afinal, o que ia com os outros. Sensação estranha, a de chegar ao Inferno e constatar que o Diabo nos trata pelo nome.


 


Sem vénias nem salamaleques estapafúrdios à moda dos vizinhos tailandeses, a guia cumprimentou-nos com natural simpatia num castelhano fluente de fazer inveja a Gil Vicente nalgum dos seus Autos. Espanto meu quando a viatura a que nos encaminhou não era uma carrinha celular nem um armão fúnebre. Pelo contrário, tratava-se dum mini bus quase luxuoso de origem japonesa ou coreana. O pobre desconfia quando a esmola é gorda.


 


E lá fomos, noite dentro, rumo ao hotel...


 


Do grupo de quatro, deveria ser eu o único que não sabia a que hotel nos dirigíamos e eis se não quando me deparo no hall monumental do Hotel Hilton de Hanói cuja magnificência me deixou completamente maravilhado e bouche bée.


 


Hall Hilton Hanói.jpg


Hall do Hilton em Hanói


 


E logo me lembrei da labrega que nos acompanhou numa visita a Istambul quando, cheia de orgulho patrioteiro, disse ao guia (Professor universitário da História de Constantinopla) que o estádio do Benfica era maior em não sei quantos lugares de espectadores que o do Galatasaray pois dei por mim a pensar que toda aquela arquitectura me fazia lembrar o antigo Cinema Eden, em Lisboa, do arquitecto Cassiano Branco. E foi no meio do meu estupor de encantamento arquitectónico que o Director do hotel nos veio gentilmente cumprimentar. Espanhol, sabia que o meu amigo Pepe também o é e não faltou com o seu acolhimento. Solidariedade ibérica a funcionar em terras de vietcongs.


 


E, quase mortos de cansaço, lá fomos até aos quartos em elevadores a condizer com a arquitectura e com os corredores a condizerem com os elevadores. Mas o espanto não ficaria por ali pois as loiças sanitárias eram de conhecida marca espanhola.


 


Foi então aqui que topei claramente com o que nos distingue dos espanhóis a quem chamamos usurpadores, colonialistas e mais não sei quê: enquanto nós ficamos a chorar frente aos telejornais por causa de todas as desgraças e misérias que nos impingem, a fazer greves e a dizer mal do Passos Coelho, os espanhóis colocaram em Hanói um Director hoteleiro e venderam por lá não sei quantas retretes e bidés. Entretanto, a nossa indústria faliu e foi comprada pela concorrente espanhola. Mas nós é que somos os bons e eles os maus.


 


Estafados, não fui ver a marca do colchão e dormimos, dormimos... Até amanhã!


 


(continua)


 


Lisboa, 3 de Dezembro de 2014


 


Vietname-Henrique à entrada das grutas na Baía d


Henrique Salles da Fonseca


(à entrada das grutas na Baía de Halong)

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