A bem da Nação

INDOCHINA – 16

 


 


Visto de longe, o «Javardão» fez-me lembrar um aglomerado de barracas mas ao aproximar-me mudei de ideias e até o achei bem simpático; por dentro tem charme e os camarotes são muito confortáveis; o Pessoal é inexcedível. Come-se bem a bordo, o que pode ser testemunhado pela minha «proeminência barrigal» em várias das fotos que publico. Mas chegado a Lisboa já comecei a desinchar e estou de novo quase normal.


 


Navegávamos e fundeávamos todos os dias e assim fomos aos «saltinhos» Mékong abaixo... Visitámos aldeias ribeirinhas onde pudemos testemunhar o tipo de existência que levam os cambojanos rurais e demos por nós a comparar os nossos conceitos com os deles, nomeadamente o de miséria. Sim, nós consideramos que eles vivem na miséria porque não têm saneamento básico nem água canalizada mas têm casa, terras de cultivo, vacas para o trabalho e para o leite (não para carne!), peixe, árvores de frutos variadíssimos, escola para os filhos. Em Portugal, os nossos rurais viviam assim ou pior até há 50 anos. E a escola é boa? Talvez seja por ela não ser assim tão boa que há umas ONG’s espalhadas um pouco por toda a parte que visitámos ensinando inglês e matemática às crianças mais desfavorecidas cujos pais não possam pagar as aulas extraordinárias que ministram os professores primários mal pagos pelo Estado. E ensinam-lhes também a ter orgulho na sua própria cultura, a khmer.


 


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E fomos navegando até chegarmos à fronteira fluvial com o Vietname onde o Senhor Santola nos chama – só a nós, portugueses – para nos dizer que há um «pequeno» problema com os nossos Vistos.


- Como assim?


- Os Senhores tinham um Visto para entrarem por Hanói mas depois saíram por Saigão e agora precisam de novo Visto para reentrarem no Vietname.


- E ninguém viu isso no controle de passaportes e só agora é que nos dizem?


- Pois, houve um erro no controlo. Mas eu vou agora durante a noite a Phnom Penh para amanhã de manhã obter os Vistos na Embaixada vietnamita e volto de seguida para tudo se resolver.


- Muito bem, se essa é a solução, faça-se como diz.


E lá foi o Senhor Santola de carro até Phnom Penh que, afinal, era só a 40 kms e – viemos a saber mais tarde – onde ele mora habitualmente tendo lá casa e família pelo que o «sacrifício» não seria assim tão grande como pensámos no momento.


Na manhã seguinte interromperam-nos o pequeno-almoço dizendo que tínhamos que ir de imediato ao posto fronteiriço assinar uns papéis e que voltávamos logo de seguida com tudo resolvido. Que o barquito nos esperava. Deixámos o pequeno-almoço por comer e lá fomos... Quando íamos a meio do percurso vimos o barco levantar ferro e zarpar rio a baixo deixando mesmo de o ver quando curvou ali a seguir por um meandro. E o «voltar logo de seguida» deixou de fazer sentido pois não teríamos barco para voltar a lado nenhum. Chegados a terra fomos recebidos por um vietnamita todo ele «sorrisos e mesuras» que nos informou que o Senhor Santola já vinha a caminho com os Vistos e não tardava nada. E esse «nada» de tempo foram três horas de expectativa sem barco, sem Santola e sem Vistos. Entretanto, lá fomos dizendo ao «sorrisos e finuras» que considerávamos que o Comandante nos abandonara e abandono de passageiros é um grande sarilho no Direito Marítimo. A ver se não teríamos que participar do Comandante. Então, se o «sorrisos e mesuras» já era naturalmente amarelado, ficou de repente completamente amarelo, sem uma pinga de sangue. E logo nos pediu para sermos «friendlies» com eles. Sim, sim... Mas logo se agarrou ao telefone e por certo que o Comandante terá ficado elucidado sobre a hipótese da nossa participação por abandono.


 


E lá chegou o Santola ao fim de três horas com os Vistos, furioso com o Comandante. O «sorrisos e mesuras» arranjou então um jeep de luxo que nos transportou numa viagem alucinante a 60 kms à hora mas parecendo que íamos a 180 ao longo da margem até encontrarmos o barco. Quando subimos a bordo fomos recebidos com uma salva de palmas pelos outros passageiros e mandámos recado ao Comandante que não nos aparecesse à frente pelos tempos mais próximos, o que ele cumpriu até ao final do dia seguinte.


 


No dia seguinte houve uma festa organizada pela equipagem e por acaso a primeira fila foi destinada aos quatro portugueses. Por que seria? O Comandante apareceu mas nós trocámos-lhe as voltas e não o cumprimentámos.


 


Dali fomos sempre aos saltinhos até ao porto de amarração do «Jayavarman» no delta do Mékong e chegou a hora de desembarcar, ou seja, a das gorjetas ao pessoal.


 


Nós teríamos um programa diferente dos outros passageiros que se meteram em autocarros e desapareceram enquanto nós tínhamos um novo guia que nos esperava com uma carrinha de super luxo, preta e doirada, estilo limousine, que fez o espanto da equipagem desde os marinheiros e pessoal de hotelaria até ao Comandante, todos alinhados em acenos de despedida. Comovente! Mas nesse momento o Comandante deve ter recebido algum telefonema e foi para trás duma grua para ouvir melhor o que lhe estariam a dizer lá do outro lado. Não vi se estava amarelado ou completamente amarelo.


 


No último momento, o Senhor Santola aproximou-se da porta da nossa carrinha preta e doirada e disse: – Once again you make the difference.


 


A todos acenámos e todos, bem agorjetados, nos acenaram numa despedida emotiva. Menos o Comandante, claro. E nós, a salvo, decidimos não participar dele e quisemos que ele tenha muitos meninos pela barriga das pernas. Não sabemos o que alguém lhe disse ao telefone mas uma coisa sabemos: aquele tipo é um autêntico javardão.


 


(continua)


 


Lisboa, 20 de Dezembro de 2014


 


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Henrique Salles da Fonseca


(no Mékong)

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