Os organizadores da viagem – a Graça e o nosso amigo Pepe – já me tinham falado do barco em que haveríamos de fazer o cruzeiro pelo Mékong abaixo dando-lhe o nome de «Javardão», o que eu sabia não corresponder minimamente à verdade mas... nunca fiando nestas azougadas gentes que ao pequeno-almoço comem sopa, massas alimentícias e ervas exóticas sem cheiros. Então, o barco chama-se «Jayavarman» e fui procurar saber porquê.
Encurtando razões (quem quiser saber mais que vá à Wikipédia por exemplo em http://pt.wikipedia.org/wiki/Jayavarman_VII), o que interessa é saber que o VII Imperador Khmer com esse nome viveu numa época sensivelmente contemporânea à fundação de Portugal e que foi ele que fez construir o monumental conjunto arquitectónico conhecido pelo nome de Angkor Wat, o que significa “Convento da cidade”, em que Wat é o convento e Angkor a cidade. Comparando então com a nossa História, imagine-se a antiguidade da civilização khmer quando este já era o sétimo Imperador com aquele nome, fora os que o antecederam com outros nomes.
O frade capuchinho português António da Madalena – nascido em local e datas desconhecidos e morrendo em naufrágio ao largo da costa do Natal, actual África do Sul, em 1589 – foi o primeiro ocidental a visitar Angkor onde chegou em 1586. Pouco antes de morrer, relatou a Diogo do Couto a sua viagem e descoberta da cidade em cuja reconstrução tentou ajudar mas o projecto não teve êxito fazendo-o desistir e regressar a Portugal.
Eis o «peso» da nossa História que transportei durante a visita. Para aliviar o fardo, montei a cavalo e deambulei por ali... Exactamente como poderá ter feito Frei António da Madalena se não levou à risca a humildade monacal. A mim, não me cabem tais coibições para ganhar o Céu.
Mais um local onde Portugal marcou presença.
E sabem que mais? Tudo me fez lembrar as monumentais construções astecas. Ter-se-ão eles conhecido uns aos outros?
O meu amigo Keith Xavier de Herédia, português de origem goesa, residente em Bombaim, sabendo da minha viagem, mandou-me um documento precioso que aqui deixo para quem queira saber mais sobre as relações bilaterais Portugal-Camboja:
http://ki-media.blogspot.in/2008/12/history-of-cambodian-portuguese.html
Entretanto, depois de várias visitas, eis-nos a caminho do «Jayavarman», o barco, para navegarmos ao longo do lago Tonlé Sap (para saber mais ver por exemplo em http://en.wikipedia.org/wiki/Tonl%C3%A9_Sap) que se liga por canal natural ao Mékong e que tem a característica sui generis de correr nos dois sentidos conforme a época do ano: na seca corre de norte para sul; na monção, com as cheias do grande rio, corre de sul para norte.
Como se vê, as originalidades cambojanas não são, portanto, apenas ao pequeno-almoço.
Mas há mais...
(continua)
Lisboa, 19 de Dezembro de 2014
Henrique Salles da Fonseca
(no deck superior do «Jayavarman, ao vento no lago Tonlé Sap)



