Se 13 é o dia das aparições de Nossa Senhora em Fátima, não vejo razões para que a superstição ultrapasse a benesse com que todos pudemos ser por Ela iluminados. E esta iluminação ofusca certamente qualquer pesadelo que nos assoberbe. Eis a razão por que escolho esta oportunidade para referir o grande pesadelo cambojano, Pol Pot.
Quem visita o Camboja não pode ignorar essa chaga da Humanidade, carniceiro só equiparável a Hitler, Staline ou Mao Tsé Tung provocando danos tremendos na Nação cambojana que só no longo prazo poderão ser devidamente sarados.
Dele me lembrei ao pisar solo cambojano e a não entender o porquê duma burocracia a raiar o ridículo na passagem da fronteira no aeroporto de Siem Reap. Terão os cambojanos medo da própria sombra? É que, para além de preenchermos um formulário relativo ao Visto turístico (que poderia perfeitamente ter-nos sido entregue durante o voo para não estarmos a perder tempo na aerogare), tivemos que entregar os passaportes num guichet, ver o dito documento passar de mão em mão ao longo duma dúzia de funcionários alinhados por trás de um balcão onde viam, reviam e carimbavam a documentação para que no final dessa fila burocrática nos alinhássemos (mais ou menos ao molho) para que um último fileiro nos entregasse o documento devidamente visto, revisto e carimbado. E se não estivéssemos na primeira linha, lá se punha o cambojano aos gritos a chamar pelo nome do candidato à entrada no seu recatado país. E que pronúncia... Já visitei muitos países e nunca tinha deparado com tal aparato. Não é normal que depois disto tudo ainda tivéssemos que passar por mais um guichet em tudo igual aos dos outros países mostrando o passaporte e a cara para, então e só então, passarmos a fronteira. Repito: não é normal. Mas reconheço que não deve ser fácil ter-se sido governado por gente tão especial como Sihanouk e Pol Pot. Os traumas perduram.
O assassino Pol Pot era isso mesmo: um assassino.
Já vimos como ele nasceu politicamente ora por revolta contra ora pela mão do Rei Sihanouk ficando conhecido pelas piores razões, precisamente como o mandante do «genocídio cambojano». Entre 1975 e 1979 foram chacinadas cerca de 2 milhões de pessoas — algo como 25% da população cambojana naquela época — incluindo membros do Governo anterior (o de Lon Nol), funcionários públicos, militares, policias, professores, religiosos cristãos e muçulmanos e sobretudo todos aqueles que tivessem formação superior, nível de estudos que ele próprio não conseguira concluir. Com a quebra das produções agrícolas, estima-se em mais um milhão de vítimas pela fome.
O «trabalho» de Pol Pot
Em fuga na selva por pressão das forças invasoras vietnamitas, foi capturado por um dissidente do Khmer Vermelho mas em 16 de Abril de 1998 foi encontrado morto quando estava prestes a ser entregue a julgamento por um tribunal cambojano com assistência internacional patrocinada pela ONU.
Seguiu-se durante 10 anos um Governo de inspiração vietnamita composto por dissidentes cambojanos de formação comunista pró-russa mas em Outubro de 1991 a ONU passou a tutelar o processo político.
Hun Sen, o actual Primeiro Ministro, é um khmer vermelho arrependido que tem deixado ir a julgamento os seus antigos correligionários não arrependidos e está sucessivamente no cargo em resultado de eleições «livres» praticando uma politica de mercado inspirada no bem comum desde que este coincida com o seu e com o da sua «entourrage». E como ele é mestre a proteger o seu «negócio»!
E a minha pergunta é: - Como se poderá sair de um tal atoleiro político?
A minha resposta: - Depois de um longo período em que os cambojanos terão que continuar a lamber as feridas e a aturar os «donos daquele negócio» que se instalaram no poder. A menos que alguém por lá se inspire em Évora...
Lisboa, 18 de Dezembro de 2014
Henrique Salles da Fonseca
(à entrada de Angkor Wat)
