Homem de cultura inesgotável e de pareceres fundamentados, o meu amigo José Augusto Fonseca já citou Vo Nguyen Giap no magnífico texto que nos ofereceu sobre o tempo e a memória na Indochina mas essa é uma personalidade inesgotável e eu não posso deixar de dizer que em toda a minha viagem pelo Vietname me lembrei dele. E se a Ho Chi Minh vi como o cérebro da construção da independência política vietnamita, a Giap continuo a ver como o braço físico dessa independência.
Vo Nguyen Giap nasceu em 1911 e morreu em Hanói em 2013 aos 102 anos de idade. General, fundador e comandante supremo do Exército do Povo do Vietname e um dos mais importantes estrategas militares do século XX, comandou as forças que derrotaram o Exército Francês em Dien Bien Phu em 1954 e o Exército dos EUA em 1975 logrando finalmente a reunificação do Vietname independente.
A título de curiosidade – não esqueçamos a fé budista que traça o karma de cada um à nascença – Vo significa força e Giap, armadura. É claro para mim que essa leitura influenciou decisivamente, pela fé, toda a vida da criança que então nascia.
Fluente em francês, em 1925 (com 14 anos de idade) já fazia parte de organizações clandestinas que lutavam contra a ocupação francesa do seu país; em 1933 foi expulso da Universidade de Hanói por se envolver em actividades subversivas e no ano seguinte ingressou no Partido Comunista da Indochina.
Passou então a ensinar História, mas ocupou mais o seu tempo a organizar colegas e alunos no âmbito da luta revolucionária. Em 1934 casou-se com a tailandesa Dang Thi Quang, também ela militante comunista que acabaria os seus dias sob tortura na prisão.
Ilegalizado o Partido Comunista em 1939, segue-se a perseguição política pelas Autoridades francesas em toda a Indochina (Vietname, Camboja e Laos) e Giap e Ho Chi Minh fogem para a China onde o futuro general se inicia na táctica de guerrilha.
No início da década de 1940 começa a carreira militar em operações de guerrilha na fronteira com a China que, à semelhança do Vietname, estava sob o domínio japonês e em 1941 participa na fundação da Liga Vietnamita para a Independência, mais conhecida por Viet Minh.
Quando, em 1945, os japoneses se renderam, Ho Chi Minh tomou o poder na parte norte do Vietname estabelecendo a capital em Hanói e Giap foi nomeado Ministro da Defesa e comandante do Exército. Assim se formou o primeiro núcleo das Tropas de Libertação do Povo com apenas 34 homens.
Giap e Ho Chi Mihn em Hanói, 1955.
Expulsos de Hanói por um contra-ataque francês, os nacionalistas meteram-se na selva e deram inicio à guerrilha que se prolongou até 1954. E foi a partir do núcleo inicial de 34 homens que Giap constituiu o aparelho militar que surpreendeu os franceses em Dien Bien Phu montando uma demorada operação de cerco da base francesa com milhares de civis a serem mobilizados para transportarem em cestas ou à mão todo o equipamento de artilharia necessário para contrabalançar o poderio francês.
General Giap, em 2008 (Ricardo Stuckert/PR/ABr).
Da derrota dos franceses resultou a divisão do Vietname com o Norte a ser governado pelos comunistas liderados por Ho Chi Minh e o Sul sob protecção americana. Mas os vietnamitas não desistiram da reunificação e a partir de 1959 deu-se início à segunda fase da Guerra do Vietname.
Armadilha
Entrada de túnel em Cu Chi, arredores de Saigão
Vietcongs em descanso
Giap, à frente das forças norte-vietnamita e dos mobilizados e simpatizantes no sul, os vietcongs, desenvolveu uma desgastante guerrilha por todo o Vietname do Sul que evoluiu para combates nas ruas de Saigão. E foi em 1975 que se alcançou a reunificação do país.
Giap continuou Ministro da Defesa e, por um curto período, foi Primeiro-Ministro mas em 1991 retirou-se em definitivo da vida pública.
Eis de quem me fui lembrando durante a visita aos túneis que os vietcongs fizeram em Cu Chi, arredores de Saigão, onde lhe «vi a sombra» por trás de cada armadilha e onde muitos americanos perceberam o que é a força de vontade de um povo que não olha a sacrifícios para se libertar de estrangeiros.
E daqui voámos para o Camboja onde nos aguardavam cenários diferentes. Já conto...
(continua)
Lisboa, 12 de Dezembro de 2014
Henrique Salles da Fonseca
BIBLIOGRAFIA: Wikipédia




