A bem da Nação

IL Y EN A PARTOUT


  Joachim du Bellay (1522/1560)


 


Tenho andado a ler Du Bellay


E outros poetas franceses do Renascimento,


Relembrando estudos feitos outrora


Que hoje foram varridos da escola


Do nosso país sem alma nem alento


Agora.


Como Du Bellay chorou amargamente,


Exilado em Roma, a sua pátria distante,


A sua “França, mãe das artes, das armas e das leis


Também eu sinto a dor da nossa amorfa escola,


Que tudo mistura, numa confusão,


E abandonou, com ingratidão,


A língua do país das Luzes


A que nós fazemos cruzes,


Renegando a orientação


Que poderíamos colher dos seus maiores,


Autores que o mundo inteiro ilustraram


Com o espírito das obras que escreveram.


 


Entre tantos dos seus sonetos e outras obras


Fez Du Bellay um, sobre o retrato dos cortesãos,


Que nós não temos por não termos rei nem corte,


Mas que cabe perfeitamente


Em qualquer lugar onde haja um que mande


Com governados a lutar pela sua sorte,


Bajulando, rindo, denunciando,


Com uma lata enorme


Com astúcia grande.


 


O soneto de Du Bellay foi desmontado


Em prosa por vezes rimada,


Que pretendeu traduzir, naturalmente,


A ideia nele assinalada,


Mais do que o estilo inefável,


Por falta de engenho, claramente,


Para, devidamente, traduzir o intraduzível.


 


Soneto de Du Bellay


 


«Os velhos “Macacos de Corte”»


 


Com metáfora de La Fontaine,


Transposto, com desgosto,


Para estrofes de vária sorte


E não com as quadras e os tercetos


Que estruturam os sonetos:


 


Senhor, eu não poderia com bons olhos olhar


Esses velhos “Macacos de Corte”


Que nada sabem fazer a não ser


O rasto dos Príncipes seguir


De igual sorte,


E pomposamente como eles trajar.


 


E se o seu Amo troça de alguém


Eles o mesmo farão, porém,


Se ele está a mentir, não serão eles quem


0 vai contrariar.


Muito pelo contrário, vão dizer,


Com euforia,


A fim de o comprazer,


Terem visto, sem constrangimento,


A lua, em pleno dia,


Ou à meia-noite, o Sol bento.


 


Se alguém, diante deles, do Rei recebe


Um franco olhar,


Logo o vão elogiar,


E mesmo acarinhar,


Mau grado a raiva da sua inveja;


Se o olhar real contra esse for


Duro que nem penedo,


Apontam-no a dedo.


Mas o que mais contra eles me enfastia


É quando, diante do Rei, sem mais nem quê,


Com um rosto de pura hipocrisia


Eles desatam a rir sem saberem porquê.


 


A coisa passa-se aqui da mesma forma,


Em qualquer lugar


Em que o patrão é rei e o trabalhador lacaio.


Não é só norma


Em Belém ou no S. Bento do Parlamento.


Insinuar-se, eis o savoir faire indispensável


Para se poder singrar.


E isso implica não só os gestos que Du Bellay focou


No retrato do seu cortesão,


Mas outros muitos, ou mesmo só mais um,


Que a experiência de cada um


Foi aprendendo a reconhecer


Naquele que os aplicou,


Todos eles reduzidos a insegurança,


Mesquinhez e subserviência.


Não há paciência!


 


Berta Brás


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