A bem da Nação

HOMO LUPUS HOMINI

 


Tem La Fontaine uma fábula


Dedicada ao Duque de Borgonha,


Com bastos elogios prévios


Que não traduzo por serem desnecessários


No âmbito da fábula,


E até nos entristecerem


Por nos mostrarem


Que, para merecerem


Ser admirados e mesmo esportulados


Com tenças que, cá entre nós,


Nem davam para comer,


Os poetas tinham que lisonjear


Quem tinha posses


Para as lisonjas pagar.


Contos largos, que nos fazem lembrar


Camões, ou Nicolau Tolentino


Que desse meio de pedincha


Fez sátira bem engraçada


De autocrítica.


Os meios hoje são outros


De autores divulgar,


Não vamos esmiuçar


Para não aborrecer quem nos quiser ler.


Quanto à história


Contada por La Fontaine,


Eu sempre ouvi dizer


- E até está escrito, no canto X da Odisseia, a sua origem –


Que foi em porcos que a Circe transformou


Os companheiros de Ulisses


E não em animais de maior gabarito,


Como conta La Fontaine,


Seguindo uma via moralista,


Mais própria do fabulista,


Transformando em apólogo


Uma história de magia


Com muita mestria:


 


«Os companheiros de Ulisses»


 


Após dez anos em alarmes de errância,


Os companheiros de Ulisses seguiam


Ao sabor dos ventos, incertos os destinos,


Quando ancoraram num porto onde a filha


Do deus do dia, Circe apelidada,


Mantinha a sua corte bem guardada.


Ela fê-los engolir uma bebida


Deliciosa mas contendo


Fatal veneno.


Primeiro perderam a razão,


Seguidamente rosto e corpo adquiriram


Os traços de diversos animais:


Ei-los tornados


Ursos, leões, elefantes,


Uns sob uma massa enorme fabricados,


Outros sob outra forma apresentados.


Só Ulisses escapou,


Desconfiado do traiçoeiro licor.


Como ele aliasse ao muito saber


O rosto dum herói e o trato ameno,


De tal modo se comportou que a feiticeira,


Caindo na esparrela,


Tomou outro veneno pouco diferente do dela.


Declarou a Ulisses o seu amor.


Ulisses era demasiado esperto para não aproveitar


Tamanha conjuntura.


Recebeu a promessa daquela


De que os seus homens recobrariam a anterior figura.


“Mas, disse a Ninfa, vão eles aceitar?


Vai já à tua trupe isso perguntar.”


Ulisses foi e lhes disse: “A feiticeira


Cortou no remédio que eu vos estou a oferecer.


Caros amigos, quereis homens voltar a ser?


A fala já retomastes.”


Responde o leão, pensando rugir:


“Não sou eu assim tão louco!


Eu? Renunciar


Aos dons que acabo de adquirir?


Tenho garras e dentes para em bocados desfazer


Quem me venha atacar.


Sou rei! Em cidadão de Ítaca vou-me tornar?


Tu far-me-ás simples soldado!


Não, não quero mudar de estado.”


Do Leão, Ulisses corre ao Urso:


“Eh! Meu irmão! Como tu estás feito,


Tu que eras tão bonito!”


“Ah! Na verdade, eis-nos aqui,


Retomou o Urso à sua maneira.


Como estou feito! Como deve estar um Urso, ora essa!


Quem te disse a ti


Que uma forma é mais bela do que outra?


Pertencerá porventura à tua


Julgar da nossa?


Revejo-me nos olhos de uma Ursa amada


Desagrado-te? Vai-te embora!


Segue a tua rota e deixa-me na minha;


Eu vivo livre, contente, sem cuidado


Que me afronte.


E digo-te chãmente:


Não quero mudar de estado!”


O príncipe grego vai junto do Lobo


Propor igual assunto.


E diz-lhe com risco de igual recusa:


“Camarada, estou desconfiado


Que uma jovem e bela Pastora


Conta aos ecos os apetites glutões


Que te fizeram devorar os seus cordeiros


Dantes viam-te salvar


O rebanho, honesta vida levar.


Deixa estes bosques e volta a ser


Em vez de Lobo, um Homem de bem,


Como ninguém.”


“Estás aí? - lhe diz o Lobo. Por mim, não vejo assim.


Tratas-me de animal carniceiro!


Tu que falas, tu que és?


Não teríeis vós, sem mim, estes animais comido, que agora


Toda a aldeia chora?


Se eu fosse Homem, como tu és,


Gostaria eu menos de carnificina?


Por uma simples palavra, quantas vezes,


Vós vos matais.


Não sois vós, uns para os outros,


Verdadeiros lobos?


Tudo bem considerado,


Sustento, sem dúvida alguma,


Que, celerado por celerado


Vale mais ser Lobo do que Homem.


Não quero mudar de estado!”


Ulisses a todos fez o mesmo apelo,


Cada um a mesma resposta lhe deu


O grande como o pequeno:


A liberdade, as leis, seguir os seus apetites


Eram supremas delícias.


Todos renunciavam às glórias


Das belas acções.


Delas se libertavam


Seguindo as suas paixões


Escravos só de si mesmos.


…. Os companheiros de Ulisses, enfim, se ofereceram


Dos prazeres as amarras romperam.


Com Ulisses seguiram…


 


 


No universo, muitos há como eles,


Amantes dos prazeres fatais,


Mas que jamais


As amarras dos prazeres quebraram,


Lobos ou chacais


Dos outros homens.


Pelo menos é o que lemos nos jornais.


Mas também há quem lhes chame sanguessugas


Pois tudo sugaram


Entre nós, Portugas.


 


 Berta Brás

0