... e os efeitos indeléveis do seu estabelecimento em Lisboa
Graças à benemerência de Fernão Telles de Menezes e de sua esposa, Maria de Noronha, na segunda década de Seiscentos os Jesuítas puderam concretizar os seus planos de construção de uma casa religiosa de consideráveis proporções numa propriedade sita na quinta do Alto da Cotovia, perto do Monte Olivete. Nessa zona, «fora de portas» da cidade, localizava-se a entretanto celebrizada fábrica da Companhia das Sedas. Como tantos monumentos similares, este convento foi acumulando vivências e heranças. Os seus espaços foram sendo adaptados a sucessivos habitantes e a variadas funcionalidades, acompanhando sempre as transformações políticas vividas pela sociedade, até chegar ao século XXI na forma de museu nacional.
A exposição que está actualmente patente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, intitulada “Memória da Politécnica: Quatro Séculos de Educação, Ciência e Cultura”, permite-nos mergulhar na longa história de diferentes instituições com um denominador comum, o ensino. Como validação da grande importância que o passado deste edifício encerra, traduzida em fenómenos como as intensas trocas de conhecimentos, artefactos e espécimes entre o Oriente e o Ocidente, a mostra inclui obras nunca antes expostas, algumas das quais descobertas somente há poucos anos.

No princípio era o convento do Noviciado da Cotovia…
Antes de se ter instalado no Campo Grande, em 1985, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa esteve sedeada no monumental edifício que albergava a Escola Politécnica da capital. A fundação desta instituição, convertida em faculdade com o advento da República, tinha ocorrido em 1837, sob os auspiciosos ventos do Liberalismo, apologista de modelos franceses que reivindicavam a primazia do ensino técnico e científico. Antes, porém, de ser adaptado às novas funções oitocentistas, o mesmo edifício fora ocupado pelo Colégio Real dos Nobres, onde, desde 1761, se ministrava um tipo de ensino veiculado pelos ideais iluministas propugnados pelo seu criador, o Marquês de Pombal. Com a expulsão da Companhia de Jesus, por ele decretada em 1759, aquele edifício tinha ficado vazio. Vazio de homens, mas repleto de sabedoria, uma vez que nesse mesmo espaço se instruiriam e se formariam, desde o início do século XVII, quase todos os Jesuítas da província portuguesa. Era tal edifício o convento do Noviciado da Cotovia, cuja memória, ainda hoje, marca presença nos espaços que compreendem o Museu de História Natural, conferindo-lhe, também por isso, uma importância redobrada na história de Lisboa e de Portugal.
In “EU AMO LISBOA”