TOMÁS DA FONSECA - IV
Abel Salazar com Tomás da Fonseca
Chegado à vida com o propósito de contribuir para a modernização da sociedade portuguesa, trazia na sua bagagem uma forte moral cristã, uma opinião muito negativa quanto à acção social da Igreja e um empenhado anti-clericalismo, uma Fé totalmente abalada e uma profunda adesão ao conceito republicano da «liberdade, igualdade e fraternidade».
Com forte pensamento crítico sobre os dogmas nacionais, não hesitou em colaborar na busca de novos caminhos que conduzissem Portugal ao ressurgimento. Mas considerando que o dogma fornece coordenadas que permitem a exploração de vias potencialmente caóticas, nunca abdicou da ética por que se regeu desde a infância e navegou com relativa serenidade por entre os escolhos do nihilismo revolucionário em busca das novas regularidades por que pugnava.
Assim, firme na defesa das suas ideias e munido de uma coragem moral que desafiou todas as vicissitudes, teve um papel preponderante na geração que fez a República sempre lutando pelos Direitos do Homem como eles muito mais tarde haveriam de ser universalmente declarados pela ONU[1].
Em 1910 foi Chefe do Gabinete do primeiro Presidente do Ministério republicano, Dr. Teófilo Braga e em 1916 foi eleito Senador pelo Distrito de Viseu.
Em 1918, por se opor à ditadura de Sidónio Pais, foi preso durante dois meses na cadeia civil de Coimbra em simultâneo com o seu cunhado José Lopes de Oliveira, período em que se dedicou a ensinar as primeiras letras aos presos de delito comum analfabetos seus companheiros de cela.
Professor de raros recursos pedagógicos, a sua ligação ao ensino foi um acto contínuo e em 1922 publicou o livro "História da Civilização" que pouco depois foi adoptado como livro escolar. Dentre as grandes questões a que nunca se furtou, ficou famosa a polémica que desenvolveu com João de Deus Ramos sobre o ensino religioso nas escolas.
Contando com o apoio de Francisco Grandella, promoveu a instalação de inúmeras escolas primárias de modo a combater o analfabetismo, causa por que pugnou até ao final da vida.
Feroz opositor das ditaduras, foi perseguido pelas suas ideias políticas liberais durante o consulado salazarista. Os seus livros foram alvo de censura e proibição. Contudo, nas mais 12 vezes que foi encarcerado não voltou a ser misturado com presos de delito comum e muito se ria com o facto de os próprios guardas prisionais à socapa lhe pedirem autógrafos em exemplares escondidos dos seus livros. Nunca foi torturado e a família sempre foi autorizada a visitá-lo.
Associá-lo a qualquer regime totalitário como o PCP[2] tentou, é denegri-lo, apanhá-lo à traição, não respeitar os seus ideais de liberdade absoluta, democracia pluralista, cultura crítica e anti-dogmática.
A título póstumo foi-lhe concedida a Ordem da Liberdade[3] e essa, sim, não se confunde com qualquer opção autocrática, monolítica ou obscurantista.
Maio de 2009
Henrique Salles da Fonseca
ALGUMA BIBLIOGRAFIA:
AGIOLÓGIO RÚSTICO, I. Santos da Minha Terra – Contos inspirados em figuras da sua terra natal, Mortágua.
ÁGUAS NOVAS – Peça em 4 actos. "Na esperança de que possa servir de refrigério, tanto aos humildes que têm fome de pão, como aos vencidos com sede de justiça".
ÁGUAS PASSADAS – Compilação de textos sobre a luta anti-clerical.
BANCARROTA – Exame à escrita das agências divinas.
OS DESERDADOS – Poesia, com um prefácio de Guerra Junqueiro.
FÁTIMA – Cartas ao Cardeal Patriarca de Lisboa
FILHA DE LABÃO – romance.
GUERRA JUNQUEIRO – Como ele escrevia. Considerações sobre o manuscrito de "Os Simples"; cartas inéditas.
A IGREJA E O CONDESTÁVEL – Uma das suas mais procuradas obras.
MEMORIAS DUM CHEFE DE GABINETE – Segundo Lopes de Oliveira, encontram-se nesta obra "não só lembranças do seu passado, da sua nobre vida, mas também eloquentes páginas da própria história da República."
A PEDIR CHUVA... – Palestra a propósito do uso das orações destinadas à imploração das chuvas em tempo de seca, integrada na «Biblioteca de Fomento Rural»
O PINHEIRO – Palestra aos seus vizinhos da Montanha, 1948, sobre a boa utilização das florestas em Portugal.
O SANTO CONDESTAVEL. Alegações do cardeal diabo – Um dos seus mais polémicos estudos históricos dedicado "Á memória dos mártires que a Inquisição queimou nas fogueiras acesas pela Igreja"
