A ESPADA E A PAREDE

D. Teresa, primeira rainha de Portugal
O imperialismo castelhano não dorme. Padece de insónia desde o dia 18 de Junho de 1116, data em que D. Urraca, rainha de Leão e Castela[1], se irritou com o facto de o Papa Pascoal II ter endereçado uma carta a sua meia-irmã D. Teresa na qualidade de Rainha de Portugal.
Sim, desde então que Portugal é uma espinha atravessada na garganta espanhola e se nós hoje nos preocupamos com estratégias de defesa, tempos houve em que o ataque foi a norma portuguesa. No sentido bélico, sempre tivemos que reagir à agressão castelhana; no sentido diplomático, foram muitas as tentativas para estabelecer a União Ibérica sob o controlo do trono português. Contudo, a única vez que tal ocorreu foi no sentido inverso ao sonhado pelos reis portugueses e, mesmo assim, Filipe II de Espanha viu-se obrigado a grandes subornos para alcançar os seus desígnios. Ficou célebre a sua expressão quando disse do trono de Portugal que «herdei-o, comprei-o e paguei-o».
Conscientes da pequenez portuguesa face ao vizinho terrestre, cedo os nossos dirigentes compreenderam que Portugal teria que ganhar dimensão ultramarina para poder enfrentar a espada espanhola. Essa epopeia começou em Ceuta no ano de 1415 mostrando que não temíamos a parede que o mar então representava.
A conquista de um Império foi a garantia da soberania nacional; a manutenção desse Império foi a razão de ser de Portugal como Nação soberana; a perda desse Império poderia muito provavelmente significar a passagem a mera região espanhola.
Não vamos agora ajuizar sobre as alternativas evolucionistas que durante o século XX se poderiam ter colocado; basta-nos constatar que essa era a visão histórica que prevaleceu até que Salazar formou opinião e passado algum tempo chegou ao Poder. O que agora nos interessa é perceber a lógica da decisão tomada em 1961 transcrita na célebre frase: - PARA ANGOLA RAPIDAMENTE E EM FORÇA!
Poderia não estar politicamente correcta nas arenas internacionais mas fazia tanto sentido interno quanto a outra polémica frase que dela resultava mas de cariz externo que nos colocava ORGULHOSAMENTE SÓS.
Sim, estávamos entre a espada espanhola e a parede americana que tanto cobiçava as riquezas angolanas.
Assim foi que nos últimos tempos de governação efectiva, José Gonçalo Correia de Oliveira, Ministro da Economia, se me queixava: - O Doutor Salazar só se interessa por política externa e não dá despacho ao resto do Governo.
Um ditador dá sempre despacho e não faz mesmo outra coisa.
Seria ele ainda um ditador?
Lisboa, Junho de 2009
Henrique Salles da Fonseca
BIBLIOGRAFIA:
D. TERESA, A PRIMEIRA RAINHA DE PORTUGAL, Cassotti, Marsilio –
– ed. A esfera dos livros, Lisboa, 1ª edição Junho de 2008