O POLVO E A TENAZ
Que distinguia o intelectual Trotsky do bárbaro Stalin? Na teoria, nada; na estratégia, o primeiro considerava prioritária a globalização revolucionária enquanto o segundo achava que a revolução tinha que se consolidar na Rússia e só depois é que se deveria estender ao resto do mundo; no plano pessoal, tudo os opunha.
Foi numa tentativa de manter o pescoço em cima dos ombros que Trotsky «emigrou» para o México mas, temendo o seu regresso, o ditador soviético mandou alguns anos mais tarde, em 1940, os seus esbirros no encalço do fugitivo e fê-lo passar pelas armas lá mesmo no exílio.
Leon Trotsky
(1879- 1940)
Prevalecera oficialmente a estratégia da consolidação da revolução soviética na Rússia mas de facto o que prevaleceu foi a consolidação do Poder pessoal de Stalin.
Exilado o inimigo e consolidado o Poder pessoal, Stalin sentiu-se livre para levar a ideia trotskista por diante. Assim foi que se meteu a fundo na Guerra Civil Espanhola para afinal sofrer o vexame da derrota às mãos de Franco e seus apoiantes. Contudo, ainda teve tempo de transportar de Valência para Moscovo o ouro do Banco de Espanha a fim de o «salvar» das mãos dos nacionalistas. Foram necessários alguns anos para que a ferida espanhola na carne da URSS ficasse devidamente lambida. A internacionalização da revolução comunista nunca mais voltou a ter algum significado até que muitos anos depois Fidel Castro ousasse entrar no hemisfério americano.
O trotskismo morreu com Trotsky mas foi a vitória de Stalin que o encerrou em túmulo definitivo por muito que alguns intelectuais marxistas o neguem. Também o Padre António Vieira afirmou que o defunto rei D. João IV havia de ressuscitar para liderar o Quinto Império e todos nós hoje esboçamos um sorriso com tal ideia.
Mas se o polvo trotskista morreu, a entrada da Rússia na Guerra Civil Espanhola revelou a estratégia da tenaz que perdurou até à queda do Império Soviético em 1989: isolar a Europa Ocidental dos seus parceiros externos e privá-la das matérias prima ultramarinas de modo a que à penúria caísse na esfera soviética. Isso implicava transferir o Império Português para o domínio da URSS na esperança de que o resto da África se seguisse num movimento que Moscovo sonhava como imparável perante o fascínio da propaganda comunista e do «canto» de algumas Kalashnikovs AK47.
Só neste enquadramento internacional se compreendem muitas das decisões que Salazar tomou enquanto deteve o Poder efectivo e nunca será demais repetir que esta estratégia soviética, a da tenaz, foi decisiva para a definição de toda a política externa salazarista. O mesmo se diga relativamente a muitas matérias inerentes à dimensão política interna.
Mas o sentimento de se estar entre a espada e a parede também foi decisivo para muitas dessas atitudes que Salazar não hesitou assumir. Já lá vamos…
Lisboa, Junho de 2009