A bem da Nação

HAPPY NEW YEAR

 


 


Porque são vésperas de Ano Novo,


Passado o Natal num ai,


É tempo de meditar


Sobre o ano que também vai


Passar noutro ai


Até ao próximo Natal,


Na monotonia


Do tempo que corre inclemente


Dia após dia.


A fábula que Florian escreveu


Trata de um gafanhoto


Saltitante e um pouco pedante


Que se julgava o “non plus ultra” dos bons


Para poder denegrir todos os mais,


Que, para ele, todos eram o “non plus ultra” dos maus,


Característica mais comum do que julgamos,


Assim como somos.


Eis, pois, a fábula de Florian,


 


O gafanhoto


 


“Já decidi, vou deixar este mundo:


Quero largar para sempre o espectáculo odioso


Dos crimes, dos horrores que meus olhos ferem.


Num retiro profundo,


Longe dos vícios, dos abusos,


Passarei os meus dias feliz, maldizendo


Os maus que, num percurso tenebroso,


Tão bem fui conhecendo.


Só eu na Terra tenho virtudes:


Como inimigos tenho tudo o que respira,


Todo o universo me detesta, homem, crianças, animais,


Mesmo o passarinho mais pequeno,


Se ocupam com me causar dano


Em jeitos desleais.


E todavia,


A todos esses ingratos, só bem eu fazia!


Eles lamentar-me-ão,


Mas só quando me virem no caixão.”


Assim gemia um gafanhoto


Hipocondríaco


E só a si se estimando,


Tonto.


“Onde vê você isso, meu irmão?”


Perguntou-lhe um companheiro:


“O quê! você não pode viver nestes campos


Roendo a doce e tenra flor dos prados


Sem se embaraçar com as questões do mundo?


Eu sei que ele abunda em danos:


Foi assim sempre e assim será.


O que você disser pouca coisa mudará.


Aliás, onde se vive melhor


Num mundo em toda a parte aterrador?


Quanto à sua cólera fatal


Contra essa galera que só a você quer mal,


Penso, meu irmão, que isso é apenas quimera


E que o orgulho por vezes cria visões.”


Desdenhando responder a tão tolas razões


De um seu igual,


Embora em bondade inferior,


Segundo o gafanhoto gemedor,


Este parte e sai do prado,


Pátria do seu triste fado.


Dois dias saltou para dar duzentos passos.


Então julgou-se no fim do hemisfério,


Entre um povo desconhecido de outro território.


Admira o belo clima,


Saúda com respeito este campo estrangeiro.


Perto dali, espigas numerosas


Sobre longas hastes, a seis pés do terreno,


Ondeantes e apertadas balançavam ao vento


Formosas.


“Ah! Aqui está o meu negócio!”


Disse ele com transporte: “nestes matas sombrias


Sem dúvida encontrarei um deserto solitário;


É um asilo seguro contra os meus inimigos.»


Ei-lo na região. Mas logo na manhã seguinte


Eis que chegam os ceifeiros palreiros.


O grupo, numeroso e barulhento,


Estende-se em semicírculo, e entre os clamores,


Os risos, os cantos das raparigas,


Caem aos montes, sob as foices, as espigas,


A terra descobre-se, e os torrões abatidos


Deixam ver os sulcos despidos.


“É demais! Exclamava o triste gafanhoto tonto,


Eis o que prova bem o ódio universal


Que por toda a parte me persegue por meu mal:


Apenas a este país chegava,


Souberam que eu estava,


E um povo de inimigos apareceu


Para a sua vítima escolher.


No furor que os anima


Contra mim empregando os meios mais horríveis


Com medo que eu escape, destroem os seus bens.


Incendiá-los-iam, se necessário fosse,


Num ápice.


Eh! Senhores! Aqui estou eu!”


Disse ele mostrando-se;


“O vosso tão grande trabalho acabai,


À vossa cólera me entregarei.”


Um ceifeiro, ali presente,


Por acaso o avista; baixa-se, pega nele


Cuidadosamente,


E , diz-lhe, atirando-o para o campo florido,


“Vai comer, meu amigo”.



Existe sempre gente gentil


Que manda comer por julgar


Que o que o que há no mundo é muita fome


E por isso diz: “Come!”


Mas outros há também que, iradamente,


Quando querem ofender


Soltam um “Vai pastar”


Um tanto vil.


O gafanhoto do Florian


Ganhou flores, após uma experiência


Que o carácter lhe não mudaria.


Quem vive a julgar


Que é o maior,


Num mundo inferior,


Não é um novo ano qualquer


Ou uma pessoa gentil


Que o faz mudar


Para melhor.


Sobretudo porque a condição


Sine qua non


Para fazer alterar


A irascibilidade


Dos gafanhotos hipocondríacos


Superiores,


Ou das pessoas desesperadas


Inferiores,


Seria uma alteração


Do “status quo” vivencial.


Mas não é o que vai acontecer,


Pelo menos em Portugal


Onde todos formamos


Praga de gafanhotos


A barafustar,


Sabedores, superiores,


E onde os que mais sofrem


São, por vezes, os que mais calam,


Senhores!


 


 Berta Brás

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