1906 (Linden-Alemanha) - 1975 (Nova Iorque - EUA)
14 de Outubro
Sempre me pareceu que a humanidade se divide em duas categorias: os que leram e procuraram entender Hannah Arendt e os que não leram, não entenderam e nem sequer procuraram entender Hannah Arendt. José Manuel Fernandes no PUBLICO de hoje emite opiniões que tem algo de concordante. Hannah e as suas "Origens do Totalitarismo" representariam na sua opinião a explicação mais plausível para o que aconteceu ao mundo no século XX, o meu século. Fascismo e comunismo são filhos do mesmo mal humano: "a vontade fazer desaparecer o indivíduo, de tudo submeter à vontade de um chefe, e, feito massa, de empurrá-lo para o suicídio". Lembra também que foi ela, quando relatava para o New Yorker o julgamento de Eichmann, quem lembrou que os homens verdadeiramente perigosos são os banais, os que não sabem distinguir o bem do mal e o belo do feio. São estes que maiores barbaridades cometem sob a capa da burocracia. Eichmann nada mais era do que um burocrata banal.
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Ao proclamar que o mal do nosso tempo foi a incapacidade dos indivíduos, mesmo os mais racionais, de se desligarem das utopias ideológicas, Hannah obviamente queria compreender porque é que o seu muito amado e admirado professor Heidegger tinha enveredado desabridamente pelo nazismo. Por fim concluiu que "A tendência para admirar os tiranos pode-se comprovar em quase todos os grandes pensadores, à excepção de Kant". E assim a judia desculpou o seu amor.
Mas foi mais longe e reconheceu que o problema estava na solidão do homem moderno que "o leva a procurar o que lhe parece ser o último apoio num mundo onde nada nem ninguém lhe merece confiança". Seria o tal "salto para a fé" (leap of faith) de que falava Kierkegaard. No caso, a nova fé, a ideologia.
Luís Soares de Oliveira
Embaixador