A bem da Nação

GERINDO A IRA DIVINA – 5

 


 


 


FINAL DO TEXTO ANTERIOR:


 


Regressamos aos primórdios da história da humanidade nos constantes esforços de distinção entre o bem e o mal.


E foi necessária tanta conversa para, afinal, voltarmos ao início de tudo? E agora?


Agora vem lá o futuro, esse que nos cumpre construir.


 


*  *  *


 


 


O bem e o mal, o correcto e o incorrecto, a hierarquização de valores, a justificação das opções, eis o sentido ético a inculcar nos jovens, os cidadãos do futuro. Como e quem o deverá fazer?


 


Temos as famílias como as células estaminais da sociedade mas agora, com tantos casos patológicos resultantes de alcoolismo, tóxico-dependência, violência doméstica e tendo também aquelas que, apesar de formal e canonicamente estruturadas, padecem de ambientes inóspitos resultantes de desenquadramento na «selva urbana» e as que têm evidentes insuficiências culturais, cumpre-nos rever muitos dos conceitos em que tradicionalmente pensávamos quando tentávamos sugerir vias de progresso social. E mais recentemente temo-las também com estruturas oficialmente reconhecidas mas menos tradicionais... Que valores transmitirão às novas gerações estas famílias sofredoras de patologias várias ou estruturadas de modos menos ortodoxos?


 



 


Perante a evolução (vilipendiação) da instituição familiar, a Escola não se pode mais eximir à função educativa quando muitos de nós pugnávamos pela educação em família e a instrução em ambiente escolar. Como se a Escola já tivesse pouco que fazer no âmbito da sua missão fundamental, a da instrução, tem agora que se substituir a quem não dá mais garantias de transmissão de valores não fracturantes.


 


O relativismo que actualmente se vive no mundo ocidental abre profundas lacunas na educação para valores como a verdade, a justiça, a solidariedade e a liberdade por antinomia a conceitos hoje tão vulgares como a interpretação de conveniência, a apologia do mais forte, o egocentrismo, a libertinagem.


 


E, contudo, todos queremos crer que o homem actual é tão bom ou tão mau como o de todos os tempos. O que difere abruptamente é o enquadramento tecnológico e alguns prolegómenos que carecem de constatação para que se lhes atalhem desvairados propósitos. Refiro-me ao hedonismo como deturpação do natural desejo de conforto, ao egocentrismo como deturpação da valorização da personalidade, à inveja como deturpação da competitividade.


 


O caminho a seguir deve assentar em todos os instrumentos que se revelem eficazes. Para além da formação e educação a nível escolar, há que aperfeiçoar os códigos de ética empresarial e profissional, o quadro jurídico democrático, discutir todos os eventuais conflitos ético-científicos, sempre reafirmando a primazia do respeito pelo homem em consonância com as actuais exigências de eficácia. E sejamos sobretudo lestos na correcção das indignidades em que tropecemos.  


 


E por que não retomar a obrigatoriedade de serviço cívico que a juventude dos dois sexos prestaria durante um ano sob disciplina militar?


 


Tudo, porque temo os que não temem a ira divina.


 


Janeiro de 2014


 


 Henrique Salles da Fonseca


 


 


BIBLIOGRAFIA:


 


OS VALORES NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – Maria Rosa Afonso e Maria de Lourdes Magalhães Oliveira, in BROTÉRIA, ed. Dezembro de 2013, pág. 479 e seg.


 


O CREPÚSCULO DO DEVER – A ética indolor dos novos tempos democráticos, Gilles Lipovetsky, ed. D. QUIXOTE, 4ª edição, Maio de 2010

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