Um belo dia, há algumas décadas atrás, coube-me presidir a uma reunião do conselho de administração de um banco de capitais portugueses e ingleses que operava na África portuguesa, como então era designada uma das melhores fatias do continente negro. O accionista britânico estava representado por Mr Baker, homem de poucas falas. Gabava-se de ter entrado para o "seu" banco – sempre o mesmo – aos 18 anos, onde tinha tido por primeiro dever dar corda ao relógio do amplo hall de atendimento ao público, instrumento que regia o ritmo da vida da instituição. Reformara-se aos 60 anos, no cargo de director do crédito, peça fundamental da engrenagem bancária.

Para a reunião estava agendada uma questão bicuda, daquelas que sistematicamente dividem os banqueiros, por muito experientes que sejam. Tínhamos um excelente cliente que excedera há muito os limites recomendados de crédito individual e continuava a solicitar mais crédito para ampliar o seu negócio. Se não atendido, o cliente passar-se-ia com armas e bagagens para a concorrência. A dúvida colocava-se pois entre a prudência e a ganância. Todos os presentes se pronunciaram: - uns pela ambição, outros pela cautela. Só o britânico se manteve arredado da discussão. Vi-me pois obrigado a solicitar o seu parecer. Baker escusou-se. Não podia falar porque ainda não encontrara o "ângulo". Pediu 24 horas para se pronunciar. Fiquei aí e então a saber que a mente do financeiro é geométrica: no princípio, está o ângulo.
No dia seguinte, conforme prometido, Mr. Baker trouxe a resposta. O importante era não dar à concorrência, de mão beijada, um cliente daquele porte e influência. O "ângulo" de observação apropriado foi, portanto, a posição no ranking bancário.
Isto vem a propósito da actual crise e dos esforços feitos pela administração Obama para a debelar. Para entender o que se está a passar e o sentido das medidas tomadas e anunciadas, teremos que procurar o ângulo, ou seja a perspectiva sob a qual são vistos os fenómenos financeiros no centro decisório.
Diria que a prioridade das prioridades actuais se situa na preocupação de garantir que os tomadores dos bonds (obrigações) do Treasury americano não irão faltar, nem sequer escassear. Com efeito, as medidas tomadas pela administração Obama visam desencorajar aplicações alternativas: - o juro dos depósitos bancários perto do zero torna o Treasury Bond atractivo; o ouro mantido a um preço assustadoramente alto desencoraja o entesouramento; a pressão sobre os governos europeus desaconselha políticas alternativas de natureza tanto fiscal como monetária. Dir-se-ia que o Treasury Bond continuará a ser peça vital na estratégia anti crise americana: procura-se assegurar liquidez hoje à custa da inflação amanhã. E isto porque enquanto a Administração americana puder continuar a endividar-se a baixo juro, sem receio de soluções de continuidade, a Casa Branca manterá o protagonismo tanto na cena interna como na internacional. Washington não abdica pois da sua condição de líder entre as nações e dispõe-se a correr os riscos financeiros inerentes à manutenção dessa posição, ainda quando estes se apresentam com proporções calamitosas. O ranking continua a ser essencial. Mr. Baker teria feito o mesmo.
Estoril, 31 de Março de 2008