Quis o destino que Francisco Lucas Pires saísse do CDS quando eu era Presidente da Juventude Centrista e quis também o destino que ele nos abandonasse a todos quando eu trabalhava no Parlamento Europeu onde nos cruzávamos amiúde.
Naquela sexta-feira, dia 22 de Maio de 1998, em que Francisco Lucas Pires, aos 53 anos, morreu, encontrava-me, pois, em Bruxelas. Tomei conhecimento da notícia, como tantos portugueses, pela televisão. Dez anos depois, também senti esse apelo de escrever alguma coisa, simples, mas diferente de tudo quanto já foi bem escrito e bem dito, sobre esse homem que me havia habituado a ouvir desde os meus catorze, quinze anos. É. Com catorze, quinze anos – e, depois, mais velho -, gostava de o ouvir também porque, para além de muitas das suas ideias e do conteúdo do que dizia, ele recorria muito a metáforas, sempre apropriadas e não raramente engraçadas, que nos cativavam e nos davam logo uma noção muito clara do que queria realmente dizer. Eis a imagem que dessa época dele guardo.
Mais tarde, lembro-me também da sua inesperada candidatura à liderança do CDS num célebre congresso, o do Maria Matos, em Lisboa, onde Francisco Lucas Pires, surpreendentemente, conquistou a liderança do partido. Como me lembro de tantos outros momentos políticos vividos com alegria, como todos aqueles que vão do início à consagração da sua carreira europeia. Enfim, matéria, pois, para inúmeros artigos...
Apesar de nestas alturas não ser habitual falar de momentos menos bons, também os houve. Tive oportunidade de falar sobre eles com Francisco Lucas Pires então, o que me permitirá, digo eu, escrever sobre eles agora. Aliás, a bem dizer, nem é isso: o que me permite escrever sobre eles é o (pouco) que conhecia de Lucas Pires. Foram, então, três, esses momentos políticos.
O primeiro foi em 1985, quando o CDS, fiado nalgumas sondagens que lhe conferiam cerca de 20% dos votos, recusou uma coligação pré-eleitoral com o PSD do seu recém-eleito Presidente, Cavaco Silva. Não pelo número de deputados – mais de quarenta – que o CDS poderia ter obtido, mas por não ter sido levada a sério a ideia de que, em Portugal, sempre que ocorre uma mudança política da esquerda para a direita, o CDS dever fazer parte dela. É que, se assim não for antes da mudança, então, ocorrida a mudança, o CDS será sempre dispensável.
O segundo momento foi quando, em 1990-91, Francisco Lucas Pires hesitou e acabou por recusar ser candidato à Presidência da República, já o PSD oficial tinha resolvido apoiar Mário Soares para um segundo mandato. No CDS, fui um dos que mais se bateu a tentar convencê-lo a ser candidato. Não foi. Da nossa área política, acabou por ser Basílio Horta que obteve cerca de 14% dos votos.
O terceiro momento foi quando Francisco Lucas Pires decidiu sair do CDS. Era eu Presidente da Juventude Centrista, teve o gesto de se me dirigir por escrito justificando a sua decisão.
Também nestes três casos, Francisco Lucas Pires tinha, obviamente, as suas razões. Todas válidas, todas lógicas. Disse-lhe, apesar de tudo, que teria preferido que o CDS se tivesse coligado com o PSD em 1985, que ele tivesse sido candidato a Presidente da República em 1991 e que não tivesse saído do CDS. Ficámos assim. Hoje, como ao longo de toda esta década, o que preferia mesmo é que ele estivesse entre nós.
Lisboa, 30 de Maio de 2008.

