A bem da Nação

FLEXIBILIDADE E PERSISTÊNCIA

 


Confesso que me sinto impressionado. Raras vezes na História é possível encontrar um exemplo de tanta persistência continuada como a que a Espanha mostra em relação ao seu objectivo final e supremo: recuperar a Soberania sobre Gibraltar, perdida em 1704 para a Grã-Bretanha.

   

 

Lembro-me de ter lido num jornal uma carta de um leitor que dizia mais ou menos isto:" A Espanha não perde de vista os seus objectivos, e reivindica com determinação para si aquilo que considera ser justo. Não desiste de Gibraltar, e proclama-o bem alto, onde quer que tenha oportunidade de fazer ouvir a sua voz. Se necessário, adapta a sua reivindicação aos tempos. É por isso, talvez, que a Espanha tende a ser um grande país, enquanto Portugal se vai deixando ficar para trás. Sobra à Espanha em auto-confiança o que em Portugal falta de orgulho e amor-próprio."

  

Tudo isto vem a propósito da notícia publicada em vários jornais no dia 28 de Outubro de 2004, segundo a qual a Espanha e o Reino Unido, sob pressão espanhola (claro!), tinham chegado a um acordo para voltar a discutir a Questão de Gibraltar. Madrid propõe-se mesmo "modernizar" a reivindicação, dispondo-se a dialogar com os gibraltinos. Para já, propõe colocar à disposição dos habitantes do Rochedo infra-estruturas espanholas (hospitais, aeroportos, etc.). Em resumo, abre mão de algumas reticências...salvo de uma Questão: a da Soberania. Neste aspecto, nada pode ser posto em causa. A flexibilidade é um meio para alcançar o fim a que, afinal, sempre, na pobreza ou na riqueza, na ditadura ou na democracia, se propôs: RECUPERAR GIBRALTAR!

  

Ainda pouco mais de uma semana antes, na O.N.U., Madrid dera alguma prova de abertura sobre a questão...embora nunca abdicando do objectivo último e imutável. Assim, esquivou-se a consentir que o diferendo fosse levado ao Tribunal Internacional de Haia. Segundo o representante espanhol,"é uma questão eminentemente política e é num tal quadro que uma solução pode ser encontrada".

  

Em Portugal, há quem admire a persistência espanhola. E aplauda. Talvez com razão. Mas bom seria que se aproveitasse tal exemplo para se começar a contestar coerentemente a continuada administração espanhola em Olivença, e não apenas em mapas, declarações marginais, ou situações-limite. Na verdade, existe um só Direito Internacional. A Espanha sabe-o, e, diplomaticamente, vai adequando o seu discurso aos ventos da História, com um propósito bem claro: recuperar o território que, acredita, deve pertencer ao seu Estado. Servindo-se de todos os meios, desde que pacíficos. Respeitando agora as opiniões dos gibraltinos... para os integrar, mais tarde ou mais cedo, harmoniosamente, na sua sociedade. Como dizia um responsável de Madrid, "a Espanha não pode, por princípio, abdicar do Rochedo. A população local, influenciada por trezentos anos de administração estrangeira, e tendo visto alterada artificialmente a sua composição étnica, terá os seus direitos salvaguardados".

  

O que distingue Olivença de Gibraltar, afinal? Acima de tudo, a atitude de cada um dos Estados Ibéricos.

  

Irá Portugal persistir na sua "timidez"? Olivença continuará e ser tema para adiar? Até quando será possível manter esta atitude?

  

Até quando pode Madrid, hipocritamente, olhar para Gibraltar e "esquecer" Olivença? Evidentemente, só o pode fazer enquanto Portugal quiser.

 

Estremoz, 29 de Novembro de2004                  

 

Carlos Luna    

 

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