A bem da Nação

Falando de flores

 


 

Íris

 

 

Quando ia aos Açores, nas férias, gostava de visitar a casa de minha avó materna. Naquele tempo ela morava no Vale dos Flamengos, região húmida e arborizada, cortada por uma ribeira de águas claras e pedras roliças, onde se instalaram os primeiros povos colonizadores da Ilha do Faial, os flamengos.  À entrada da modesta morada, de janelas envidraçadas, resguardadas por cortinas brancas e rendadas, havia um pequeno portão de madeira que dava para um jardim multicolorido. Rosas, cravos, margaridas, dálias, amores-perfeitos, ervilhas de cheiro e hortênsias, de todos os matizes, disputavam lugar com canteiros de couves, alfaces, ervilhas, tomates e ramas de feijões rajados. Embora gostasse do visual, não entendia bem aquela mistura de elementos, que se renovava a cada período específico. Como é que vovó cultivava folhas tão importantes para a alimentação,  junto de flores, coisinhas tão vistosas e cheirosas,  mas sem nenhuma utilidade, a não ser a beleza? Pensava eu, candidamente. . Só mais tarde, entendi o porquê daquela combinação. Além do pouco espaço para plantar, as flores embelezavam o ambiente, atraíam pássaros, que comiam as lagartas das hortaliças, e chamavam as abelhas, que espalhavam o pólen para se ter mais plantas, flores e mel. 

 

Quem já sentiu a emoção de ganhar rosas vermelhas do seu amado, por certo sabe a força que elas têm. Curiosa, fui pesquisar sobre as flores e, lendo, descobri que foram os ingleses, no século XVIII, que aprenderam com os turcos a linguagem social e romântica das flores, quando o gesto representava mais que a palavra, tornando-a em certas ocasiões até dispensável.

Apreciadas desde sempre, as flores encantaram pessoas, sensibilizaram corações e enterneceram mentes.  Na vida e na morte, em todos os momentos importantes, elas foram companheiras inseparáveis. Agradaram, acolheram, despediram,  consolaram, seduziram e até rotularam. Enfeitaram casas, templos e túmulos. Emprestaram sua beleza para a aristocracia, como símbolo de nobreza. Quem não conhece a flor de Lis, aquela dos Luizes, símbolo da coroa francesa? E a rosa, a que deu  nome à disputa do reino inglês, na Guerra das Rosas,  entre as famílias Stuart (rosa branca) e Lancaster (rosa vermelha)?

 

O poder das flores vai muito além da simbologia romântica e da força comercial que exerce sobre os homens. Sem elas não há vida, como órgãos reprodutores que são, quando num ciclo vital se transformam em frutos e sementes, origem de todo o ser vegetal, base do todo o alimento.

 

Na saúde têm aplicações imensas,  desde a modesta genciana, que trata fungos e bactérias, até a azálea,  que mata com seu poderoso veneno. Sem falar da antiquíssima papoula, matéria prima do ópio, actualíssimo problema. As suas tintas coloriram tecidos, cabelos e corpos, em sinal de feitiço e lutas. 

 

Nos lares, dos mais simples aos mais bastados, frequentam as mesas em vistosos arranjos, em apetitosas saladas, em saborosas geleias e delicadas pétalas cristalizadas, em licores e vinhos (sabugueiro e dente-de-leão) deliciosos.

Mas é sem dúvida nos perfumes que mais se destacam, espalhando odores, marcando presença, insinuando amores.

 

Participaram da História, nos escudos dos bravos, no regaço de rainhas e no peito das damas. Estiveram nas cabeças coroadas. Figuras omnipresentes nas lendas e nos mitos das civilizações humanas. Foram mensageiras dos deuses e protectoras dos homens, como a íris que  Hipócrates achava ter capacidade de curar distúrbios de ordem sexual.  O certo é que as vovós de muitas gerações usaram o pó da sua raiz para aliviar as dores das gengivas das criancinhas.

 

Lugares e cidades do planeta Terra deram testemunho da sua importância como Florença na Itália e a Ilha das Flores nos Açores.

 

Como curiosidade, do livro Linguagem das flores (Sheila Pickles)  retiramos o significado simbólico de algumas flores:

Cravo -  ai, meu coração

Camélia -  beleza perfeita

Margarida - inocência

Gerânio-tristeza

Jasmim-graça e elegância

Íris – mensagem, autoridade,dor

Alfazema - desconfiança

Lírio - pureza

Narciso-vaidade

Amor-perfeito - pensamentos

Prímula-juventude

Rosa-amor

Girassol-altivez

Violeta - modéstia

Amarílis – orgulho

 

Com tantas mensagens insinuadas na linguagem simbólica das flores, as pessoas deveriam usar mais essas belezas para dar recados. Com certeza, haveria mais harmonia e entendimento.

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba 27/07/08

 

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