( Foto do livro de J. Duarte Amaral " O livro do Chá")
Depois que a TV Globo lançou uma nova telenovela de Gloria Peres, O Caminho das Índias, muito se anda especulando sobre a cultura desse povo, que há muitos séculos interagiu com a nossa. Pode ser que agora a curiosidade popular leve as pessoas a redescobrir Vasco da Gama, o caminho marítimo para as Índias, e a relembrar que as trocas culturais e comerciais entre Índia- Açores-Portugal e Brasil são muito antigas e que influenciaram o nosso mobiliário e hábito alimentar condimentado, a nossa arquitetura e até escultura, principalmente dos santos católicos, como nas obras de Aleijadinho onde se vê a influencia nirvânica .
O açoriano Vitorino Nemésio deixou gravada a sua fascinação pelas coisas da Índia neste texto:
"Lembrou-me, como se fosse hoje, do espetáculo da chegada dos caixotes de pau de cânfora de que iam saindo por milagre as loiças de tons quentes, as caixinhas de teca e sândalo recheadas de colchas de seda em que voavam pássaros esquisitos e em que flores de matiz precioso me pareciam lume a arder. Saíram cadeirões de encosto cinzelados de palmas e de Budas de ventre lêvedo; saíram estampas e umbelas de papel de arroz e seda pura, que abriam e fechavam de repente. Minha mãe teve um leque que a fazia corar de felicidade e de pudor ao quebrar pelo unido das varetas a sua desdobrada paisagem de tigres e de tetos de pombal. E uma miniatura do túmulo de São Francisco Xavier levava tanta prata e um trabalho de estilete tão miúdo que venceu logo, a meus olhos, o prestigio do real presépio da nossa capela do Rosário.
Começou então a minha viagem imaginária à Costa do Malabar...
Algumas estampas da Índia Portuguesa de Lopes Mendes, encadernada em dois volumes na grande consola da sala que tinha o Crucifixo de marfim, elucidavam-me sobre aquele mundo remoto e fantástico do meu tio."
(In- Panorama Lisboa, n.o 13-14, 1955)
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 04/03/09