A bem da Nação

Fábula domingueira

 


  http://www.intersonic.com.br/sonicbiologia/doninha.png


 


La Fontaine tem fábulas em qualquer área


E para quaisquer ocasiões.


Não tenho dúvidas quanto a esta verdade,


Nem indecisões


A respeito da universalidade


Da sua produção extraordinária.


 


A doninha que entra magra num celeiro,


Por um buraquinho,


E não consegue sair Nem fugir


Porque o buraco ficou apertadinho


Para quem, como ela, comeu que se fartou


E muito inchou,


Tem uma consagração


Tão geral


- Direi mesmo global -


Que nem precisa de explicação,


Tal a frequência da sua aplicação


Antiga e actual.


 


Mas ainda mais hoje em dia


Com tanta doninha


Entrada magrinha


No buraco estreito da casinha


- Ou sequer Nação –


Em enorme proliferação


Que em breve o celeiro


Perde o alimento inteiro


Nada sobrando


Para a maioria


Cuja soberania


Só ficou na canção


Da vila alentejana consagrada,


Mas apenas como poesia


Falhada.


 


Aliás, ninguém mesmo pensa em passar


O buraco estreito do celeiro


Preferindo ficar por inteiro


Até findar


A refeição,


Sem pensar


Em emagrecer


Ou o peso perder.


 


Vejamos então


A tradução


Sem mais questão,


Que o La Fontaine


Também dá a explicação:


 


“A doninha que entrou no celeiro”


 


Donzela Doninha,


Corpo longo e sinuoso


Entrou num celeiro


Por um buraco manhoso.


Saíra de doença recente


Mas, sempre tesa,


Comeu à tripa forra no celeiro,


Cheia a mesa,


Comeu, roeu, sabe Deus com que fervor,


E o toucinho desapareceu,


Sem nenhum pudor.


Ei-la, em conclusão,


Gorda, opada, como o Sebastião


Comilão.


 


Ao fim de uma semana


Tendo comido a seu prazer, 


Ouve um ruído sacana,


Quer abalar,


Pelo buraco não consegue passar,


Julga que se enganou


Depois que tanto o procurou.


Diz ela então:


- É este o buraco, sem objecção,


Há cinco ou seis dias por ele passei


Bem sei.


Um rato que a viu em aflição


Comentou desta feita:


- É que, então,


A sua pança estava mais estreita:


Entrou magra, magra deve sair


Não há que discutir.


O que lhe estou a dizer


Digo-o a muitos mais,


A outros que tais,


Mas não confundamos, para não aprofundar,


Nem me prejudicar,


Os negócios deles,


De ambição sem solidariedade,


Com os seus, doninha,


De mera voracidade.


 


Berta Brás

0