A bem da Nação

ESCREVER MACAU EM PORTUGUÊS

 


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FALAR DE NÓS


 


 


“... a literatura de Macau em língua portuguesa continuará a crescer, a renovar-se e, sobretudo, a ser uma das mais representativas expressões artísti­cas da Região.”


Maria Antónia Espadinha, vice­-reitora da Universidade de S. José


 


Quando o fotógrafo profissio­nal e artista António Duarte Mil-Homens – ele próprio, poeta – quis tirar o retrato a dezenas de pessoas com obra publicada so­bre temática macaense ou inspirada nesta abençoada terra, incentivado­ra, pela história e pelas suas gentes, de projectos literários, algumas de­las terão estranhado tal propósito. Explicada a intenção de se organi­zar uma exposição, na sequência de uma outra levada a efeito em 2013, dedicada a escritores locais de lín­gua chinesa, a anuência de quantos foram contactados viabilizou a mos­tra há poucas semanas inaugurada no edifício do antigo tribunal e futu­ra sede da biblioteca central.


Propósitos da mostra


Dois objectivos nos parecem ób­vios: homenagear, por um lado, os escritores de Macau e, por outro, apelar à participação de outros – e tantos são! –que ainda não quiseram ou não puderam partilhar os seus testemunhos e publicar os seus tra­balhos, não obstante a existência de meios para garantir as edições.


A iniciativa partiu do Instituto Cultural, que contou com a esclare­cida intervenção da Casa de Portu­gal. Guilherme Ung Vai Meng, pre­sidente daquele Instituto, explicou, no acto de abertura, a razão de ser desta iniciativa incluída no seu pro­grama de acção:


“O Governo da Região Administra­tiva Especial de Macau anunciou, no Relatório das Linhas de Acção Gover­nativa para 2012, a criação da Casa daLiteratura de Macau, a qual tem, como objectivo a salvaguarda de obras literá­rias e documentos históricos de Macau, e a promoção e desenvolvimento da li­teratura sino-portuguesa. O Instituto Cultural realizou, no ano passado, a exposição ‘Caras da Literatura de Ma­cau em Língua Chinesa 2013’, mostra que teve como alvo escritores chineses de Macau. Este ano, em colaboração com a Casa de Portugal em Macau, o Instituto Cultural realiza a Exposição de Retratos ‘Escrever Macau em Portu­guês’. Os critérios de participação são ‘estar vivo, escrever textos sobre Macau e ter livros publicados’. Os escritores de Macau que satisfazem estes critérios fo­ram convidados a tirar uma fotografia. O objectivo é dar a conhecer ao público os escritores de língua portuguesa de Macau, fomentar o desenvolvimento da literatura portuguesa e promover a recolha de obras originais portuguesas de Macau.


Convidámos mais de trinta escrito­res de língua portuguesa a participar na Exposição.”


34 escritores


São exactamente 34 os escritores escolhidos, com breves descrições da obra literária de cada um: Agustina Bessa Luís, Alice Vieira, Altino do Tojal, Ana Cristina Alves, Ana Ma­ria Amaro, Ana Maria Magalhães, Ana Paula Laborinho, António Au­gusto Menano, António Conceição Júnior, António Correia, António Graça de Abreu, António Rebordão Navarro, Carlos Frota, Carlos Mar­reiros, Carlos Morais José, Carolina de Jesus, Cecília Jorge, Celina Veiga de Oliveira, Eduardo Ribeiro, Fer­nanda Dias, Fernando Sales Lopes, Isabel Alçada, Jorge Arrimar, Jorge Rangel, José Jorge Letria, Luís Sá Cunha, Manuel Afonso Costa, Maria Helena do Carmo, Miguel de Senna Fernandes, Pedro Barreiros, Rodrigo Leal de Carvalho, Rogério Beltrão Coelho, Rui Rocha e Tereza Sena.


Alguns, porém, não foram con­templados, como José Valle de Fi­gueiredo, Cândido do Carmo Aze­vedo, Leonor Diz de Seabra, Beatriz Basto da Silva, Amadeu Gomes de Araújo e António Aresta, por exem­plo.


Literatura de Macau


Mas, o que é ou como se caracte­riza a literatura de Macau em língua portuguesa? Maria Antónia Espadi­nha, professora emérita da Universi­dade de Macau e agora vice-reitora da Universidade de S. José, oferece­-nos esta resposta:


“Podemos dizer que literatura de Macau existe desde o momento em que alguém escreveu, em português, um poema, um conto, um ensaio tendo Ma­cau como tema ou como cenário fosse qual fosse a origem do autor.


Definir o que é ‘literatura de Macau em língua portuguesa’, circunscrevê­-la, não é fácil. Nas últimas décadas tem havido alguma preocupação em definir o que é a literatura de Macau. Partir de uma ou de várias dessas definições, maioritariamente propostas por autores chineses a propósito da literatura em língua chinesa pode de algum modo, facilitar-nos a tarefa. Podemos, no en­tanto, ressalvar que qualquer dos crité­rios que têm sido utilizados não satisfaz a todos, ou porque é demasiado restrito, ou porque, pelo contrário, é demasiado abrangente. Quanto a nós, preferimos um critério muito abrangente, até por ser ele o que melhor reflecte a maneira de ser do Território, porto de abrigo para todos os que a ele acorreram, terra adop­tiva de e adoptada por todos os que nela encontraram um lugar para viver.


Fazemos nossos a opinião e o critério enunciados por Cheng Wai-Ming para a Literatura de Macau, e que tanto YaoJing Ming (‘Em busca do habitável a partir da Antologia de Poesia Contem­porânea de Macau’) e Ana Paula Labo­rinho (‘Macau na Escrita, Escritas de Macau’) referem e citam.


Tomamos como ponto de referência as palavras de Cheng Wai-Ming, que considera ‘literatura de Macau’



  • ‘Quaisquer obras dos naturais de Macau’ ou

  • ‘as obras dos escritores titulares dos documentos de identidade de Ma­cau’, ou ainda

  • ‘Todas as obras que falem de Ma­cau ou tenham por temas a realidade de Macau, seja quem for o seu autor’.”


Parece – e bem – a Maria An­tónia Espadinha que se deve tam­bém integrar neste conceito a obra literária em patuá: “Se, à última definição proposta por Cheng Wai­-Ming, acrescentarmos três peque­nas palavras, estaremos a encontrar uma definição clara do objectivo que pretendemos. Diríamos então que a literatura portuguesa de Macau é constituída pelos textos literários es­critos em português ou em patuá, o crioulo macaense de base portugue­sa, e que tem Macau como tema ou como cenário.”


O fotógrafo


Natural de Lisboa e residen­te permanente de Macau, António Duarte Mil-Homens tem mais de 40 anos de experiência como fotógrafo profissional e artista, com 18 expo­sições individuais e trabalhos apre­sentados em 21 colectivas.


Leccionou já dezenas de cursos de Fotografia, incluindo workshops de Fotografia Digital. Obras suas in­tegram inúmeras colecções particu­lares. Este conjunto de retratos ates­ta bem a sua indiscutível qualidade.


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Jorge A. H. Rangel


Presidente do Instituto Internacional de Macau.


 


In Jornal Tribuna de Macau – 4NOV14

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