A bem da Nação

ESCOLA E FAMÍLIA - 2

Eduardo Alfredo Cardoso de Miranda, Prof. Universitário
Comunicação apresentada em 28 de Novembro de 2003 na “Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem”, Rua Prof. Vieira de Almeida, 5, 2C – 1600-664 LISBOA.

(continuação)


2- A SOCIALIZAÇÃO (3) PRIMÁRIA

É aquela que o indivíduo experimenta desde a nascença e em virtude da qual se torna membro da sociedade e em particular do seu grupo. Tem para o indivíduo uma importância básica, ela estrutura toda a sua grelha de análise e esta acumulação de informação particular, face ao posicionamento familiar na estratificação social, não determinará mas influenciará toda a descodificação da realidade social.

Pensamos ser pacífico admitir que a escola não se posiciona socialmente ao nível da camada social mais baixa, mas sim a um nível superior, neste sentido aqueles que se encontram abaixo dela terão mais dificuldades do que aqueles que se encontram a um nível superior. É fácil, nesta perspectiva, perceber que o jovem na posse de capitais baixos sofra as suas consequências no que respeita ao sucesso escolar. Por exemplo, em relação aos códigos linguísticos, aos assuntos tratados em casa facilitadores do desenvolvimento mental, se possuem computador ou não, se têm ligação à INTERNET ou não, onde passam as férias, se foram despertados para os hábitos de leitura, etc. etc. Toda esta trajectória de vida terá o seu peso.

3- A SOCIALIZAÇÃO SECUNDÁRIA

É o processo subsequente à socialização primária. Esta etapa da socialização pretende ser abrangente, isto é, proporcionar ao jovem, por via de uma interacção diversificada, aperceber-se da diversidade de representações sociais salientes nos actores representativos dos vários grupos estratificados (4). Permitir-lhe-á um conhecimento multi-sub-cultural. Como já se referiu, todas as sociedades hoje em dia e cada vez mais, manifestam uma crescente divisão social do trabalho (5), que toma corpo pela legitimação escolar. É por esta via que se almeja a posição social e respectivas recompensas: económicas, de prestígio e de poder. É esta a base que nos possibilita a mobilidade social ascendente.

A socialização secundária implica, por isso, duas educações: uma informal no sentido em que permite o contacto com outras formas particulares de pensar, sentir e agir que cada um arrasta para o espaço escola; e de uma formal que tem que ver com os conteúdos programáticos. Atendendo a esta diversificada amostra representativa dos vários grupos sociais, o resultado escolar é diferenciado com prejuízo para aqueles da estrutura social mais baixa. Por isso se diz que a escola reproduz as desigualdades sociais: “A escola não passa de um instrumento utilizado pelos estratos dominantes para garantir a reprodução da estratificação social.” (6) A escola funciona como um mecanismo de decantação, isto é, como um mecanismo de selecção, interiorizando naqueles jovens a convicção de que o seu insucesso se fica a dever à sua falta de capacidade natural. Mas esta dificuldade, segundo alguns especialistas sobre esta matéria, também se fica a dever à postura do agente educador.

Mas claro que esta discussão abrange todos os sectores da sociedade responsáveis pela educação: “O relativo insucesso das políticas educativas de igualização das oportunidades de sucesso escolar derivam do facto de os alunos de estratos sociais mais elevados, devido a uma educação familiar mais consonante com os valores e estilos de aprendizagem escolar, aproveitarem melhor as oportunidades de êxito do que as políticas de sucesso de aplicação generalizada oferecem e, assim, se manterem ou aumentarem as desigualdades. Logo, a chave da questão está na diferenciada educação familiar informal que os alunos levam para a escola.”


4- ALGUMAS PERSPECTIVAS DA SOCIOLOGIA EM RELAÇÃO À ESCOLA

Um dos precursores da sociologia, Durkheim (meados do séc. XIX e princípio do séc. XX), definiu educação como sendo “a acção exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda se não encontram amadurecidas para a vida social. Ela tem por objectivo suscitar e desenvolver na criança um certo número de condições físicas, intelectuais e morais que dela reclamam, seja a sociedade política, no seu conjunto, seja o meio específico a que ela se destina particularmente.” No fundo, é dotar os mais jovens de aptidões ajustadas aos imperativos da sua sociedade. E estes imperativos vão-se alterando com o andar dos tempos e considerando o tipo de sociedade a que nos referimos.

No nosso tipo de sociedade, a educação tem por atributo homogeneizar e diferenciar os seus membros. Por homogeneizar, deve ser entendida a capacidade de reforço e de entendimento que imprime, levando os indivíduos a prosseguirem um rumo no tempo, sem grandes perturbações. Por diferenciação, deve ser entendida a capacidade de desigualdade que distribui os seus membros por posições sociais diferenciadas, é “um processo de construção social. (...) A escola de hoje não é igual à escola de ontem e não terá necessariamente de ser igual à escola de amanhã. A mudança operada e a que certamente se irá dar é essencialmente o resultado de um longo e conflituoso processo de elaboração e reelaboração, em que as diversas forças sociais participam ou competem, conferindo a cada momento uma nova face à educação. (...) está dependente do contexto político, económico e cultural de cada sociedade.” (Eurico Lemos Pires e outros; p. 15). Isto significa que a sociedade, em cada momento, tem uma grande capacidade para se reequilibrar. E embora os conflitos possam denotar um estado de patologia social, eles mais não são do que alavancas mobilizadoras para se vencerem inércias sobretudo, nas nossas sociedades, marcadas por uma forte e crescente concorrência generalizada.

(continua)

(3) - PIRES, Eurico Lemos; FERNANDES, A. Sousa; FORMOSINHO, João - A Construção Social da Educação Escolar, Lisboa, Edições ASA, 1998, p. 239. “Consiste nos processos sociais através dos quais um indivíduo se torna membro de grupos sociais, apreendendo a cultura desses grupos e adoptando um comportamento social aprovado por eles.”

(4) - PIRES, Eurico Lemos; FERNANDES, A. Sousa; FORMOSINHO, João; A Construção Social da Educação Escolar, Lisboa, Edições ASA, 1998, p. 235. “... desigualdades existentes entre os membros de uma sociedade – em termos de poder, prestígio ou riqueza – poderemos ver aí uns certos padrões regulares. Estes são geralmente designados por estratos. (...) Nas sociedades modernas os estratos apresentam-se em termos de classes ou sistemas de status e classes.”

(5) - GIDDENS, Anthony, Sociologia, Lisboa, Fundação Caloustre Gulbenkian, 1997, p.878. “Divisão de um sistema produtivo em tarefas ou ocupações laborais específicas, criando interdependência económica. Todas as sociedades têm formas, elaboradas ou rudimentares, de divisão de trabalho, nomeadamente entre as tarefas distribuídas pelos homens e as cumpridas pelas mulheres. Com o desenvolvimento da industrialização, contudo, a divisão do trabalho tornou-se mais complexa do que em qualquer outro sistema anterior.”

(6) - PIRES, Eurico Lemos e outros, A Educação Social da Educação Escolar, p. 190.

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