Passando semanalmente por alguns escaparates livreiros, dou por mim a pensar que muito têm aqueles fulanos a contar para conseguirem escrever tantos calhamaços tão grossos. Mais: há escritores que não devem fazer outra coisa na vida se não transpor para o papel ideias novas que devem recolher afanosamente por tudo quanto é sítio, verdadeiros caçadores de insectos e fantasmas. Ou será que se limitam a conjugar arranjos e combinações de banalidades?
A intensa sequência editorial de alguns dá mesmo para imaginar que estiveram durante muito tempo à espreita de «coisas» que mereçam relato e, de repente, põem tudo no papel, de enxurrada. Só que alguns são suficientemente jovens para que esse tempo de espreitadela não seja compatível com as respectivas idades. Vai daí, volto a imaginar que se trate do tal tecido de arranjos e combinações de banalidades.
Por vezes, mais do que ler as badanas e contracapas, folheio a esmo ou por sugestão do índice (quando existe) e constato que há quem tenha escrita enxuta e quem a tenha adjectivante, melosa, insinuante e sinuosa. Prefiro a escrita enxuta e facilmente me farto da melosa que considero pródiga nos gastos de papel.
Pelo tema que aborda, a ética pós moderna, comprei um livro de um filósofo francês que venho estudando mas que poderia ter quase metade do número de páginas se a escrita fosse sóbria. Mas é floreada para não dizer mesmo que é repetitiva. Só que este autor não refere banalidades: observa o mundo numa perspectiva bem original, procura-lhe justificações e dá-lhe prospectivas. No entanto, tudo isso poderia ter sido feito sem molho e apresentando apenas o filet mignon que o leitor procura. Mais prosaicamente, eu preferia que não me dessem palha.
Voila! Os escaparates livreiros, assemelhados às manjedoiras em que saciamos a fome de leitura, poderiam ter metade do tamanho (e do negócio) se retirássemos a palha que nos querem impingir, se os escritores não se limitassem a conjugar banalidades, se tudo fosse filet mignon.
Acabei há dias de ler um livro com 574 páginas de escrita marcial, só com conduto e sem palha. Comecei a lê-lo em Dezembro de 2011, fui-o saboreando e arrumei-o agora bem à mão de semear pois vou lá voltar; os que me deram palha estão arrumados por aí...
Pois se até a minha égua está proibida de comer palha, por que hei-de eu levar com ela criada por escritores e enfardada por editores? Não! E se até à picanha retiro as gorduras para evitar a formação de colesterol nas veias, também as letras as quero castrenses para evitar o colesterol mental que tanto obstipa alguns narradores e comentadores da nossa praça.
E isto é mesmo só en passant...
Setembro de 2014
