A bem da Nação

E SERIA O QUINTETO DE CORDAS?

 


 



 


Cora Coralina, pseudónimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretãs, nasceu em Goiás em 1889 e faleceu nessa mesma cidade em 1985 depois de ter vivido quase 50 anos em São Paulo.


Poetisa e contista, tinha apenas a instrução primária e quando enviuvou passou a fabricar e vender pastéis e banha de porco. Publicou o seu primeiro livro quando já tinha quase 76 anos de idade.


Alheia a modismos literários, dá gosto lê-la e basta conhecermos os nomes que pôs aos filhos para lhe tomarmos o pulso e imaginarmos o que lhe ia por dentro: Paraguaçu, Eneias, Cantídio, Jacinta, Ísis e Vicência. É obra!


 


CORAÇÃO É TERRA QUE NINGUÉM VÊ


Quis ser um dia jardineira


De um coração – nada colhi.


Nasceram espinhos


E nos espinhos me feri.


Quis ser um dia jardineira


De um coração


Cavei, plantei.


Na terra ingrata nada criei.


Semeador da Parábola,


Lancei a boa semente a gestos largos...


Aves do céu levaram,


Espinhos do chão cobriram,


O resto se perdeu.


Na terra dura da ingratidão,


Coração é terra que ninguém vê – diz o ditado.


Plantei, reguei, nada deu, não.


Terra de lagedo, de pedregulho – teu coração.


Bati na porta de um coração.


Bati. Bati.


Nada escutei.


Casa vazia.


Porta fechada,


Foi o que encontrei...


 


HUMILDADE


Senhor, fazei com que eu aceite minha pobreza


Tal como sempre foi;


Que não sinta o que não tenho,


Não lamente o que podia ter


E se perdeu por caminhos errados


E nunca mais voltou.


Dai, Senhor, que minha humildade


Seja como a chuva desejada caindo mansa,


Longa noite escura numa terra sedenta


E num telhado velho.


Que eu possa Vos agradecer


Minha cama estreita, minhas coisinhas pobres,


Minha casa de chão, pedras e tábuas remontadas


E ter sempre um feixe de lenha debaixo do meu fogão


De taipa e acender, eu mesma,


O fogo alegre da minha casa


Na manhã de um novo dia que começa.


 


ANINHA E SUAS PEDRAS


Não te deixes destruir...


Ajuntando novas pedras


E construindo novos poemas,


Recria tua vida, sempre, sempre.


Remove pedras, planta roseiras e faz doces.


Recomeça.


Faz de tua vida mesquinha um poema.


E viverás no coração dos jovens


E na memória das gerações que hão-de vir.


Esta fonte é para uso de todos os sedentos.


Toma a tua parte.


Vem a estas páginas


E não entraves o seu uso


Aos que têm sede.


 


Os outros membros do quinteto, jongleurs de mots, podiam tocar sanfona, tambor ou matracas mas esta, quase pela certa, tocava fino, violino.


 


Outubro de 2014


Henrique Salles da Fonseca


 Henrique Salles da Fonseca

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