O Embaixador Francisco Henriques da Silva, que escreve o artigo “A CESURA NORTE-SUL E A PRETENSA UNIDADE EUROPEIA”, deve ter sentido muitas vezes o tal sentimento de superioridade dos povos nortenhos para com os do sul, que descreve, lembrando quanto o excesso de equilíbrio e seriedade desses não significa propriamente virtude, que o excesso de auto convicção vaidosa logo minimiza ou até destrói. Um dia também a minha filha Paula, que esteve na Bélgica a assistir a aulas de professores belgas, integrada num projecto educativo da sua escola, sentiu quanto foi isenta de afecto humano a aula de determinado professor, rígido no comando impecável da sua aula, sem lugar a desvios nem a devaneios de comportamento. Mas é claro que não se pode generalizar, embora um dos comentários que o artigo mereceu – de Apmachado – revele também que tais atitudes de superioridade intelectual dos povos europeus do norte e do centro sejam desfiguradas quando confrontadas com os valores morais de sensibilidade e generosidade. Afirma Apmachado: “Convém não esquecer as experiências sobre os efeitos da radioactividade feitas na Suécia, pelos finais dos anos '40. As cobaias foram indigentes e deficientes mentais.”
Tais considerandos trouxeram-me à ideia o livro autobiográfico de Liv Ullmann, grande actriz norueguesa que, no seu livro “Mutações”, de extrema sensibilidade e inteligência, revela radicalismos da sociedade convencional norueguesa idênticos aos de qualquer outra sociedade mais limitada dos países do sul, nas experiências que tão expressivamente relata, o que nos causou estranheza. Mas foi o retrato da sua avó, sua grande companheira e amiga nos tempos da adolescência rebelde, que sobretudo estranhámos na solução final familiar de internamento num centro para idosos, asséptico e intransigente, como os seres que nele se moviam escrupulosamente competentes, e definitivos, últimos acompanhantes impessoais e gélidos das vidas idosas, que foram bem diversamente povoadas nas suas vidas anteriores:
É doloroso lembrar a última parte da vida dela. Um lar para velhos. Mobilado com bom gosto. Todas as cores combinando, as funcionárias com aventais brancos e sorrisos pacientes. Entretanto, logo que a campainha tocava, para o café da manhã, o almoço ou a ceia, as cinquenta velhas senhoras imediatamente tinham de sair dos seus quartos e seguir para o refeitório. Sentar-se à mesa com aqueles cuja companhia não desejavam. Conversar sobre acontecimentos pelos quais não sentiam nenhum interesse. Ter amigas com as quais só possuíam em comum a solidão e a espera.
O pânico, quando ela tinha de passar um dia deitada; três dias deitada representavam uma transferência para a ala da enfermaria. Havia uma longa lista de espera para os quartos de residência e raramente alguém voltava da enfermaria. Um dia, a avó também foi levada para lá.
É muito melhor para os velhos ter supervisão constante, poder ficar com outros na mesma situação. “Os parentes que só desejam o melhor para os seus entes queridos e os enviam para uma instituição onde não se é mais “eu”, e sim “nós”.
Nós” temos de ir para a cama um tanto cedo, talvez - se é que “nós” nos conseguimos levantar, naquele dia. Algumas vezes, as abluções nocturnas e preparativos para a noite são às quatro da tarde. Um tanto cedo, talvez, mas há falta de funcionários – e “nós” não temos tanta coisa assim para fazer, de qualquer modo, quando “nós” estamos acordadas.
Bater à porta já não é necessário. Que tipo de segredos pode ter uma pessoa velha? Alguém que só dispõe de um leito, a menos de um metro de distância do vizinho. Onde não há livros nem móveis nem quadros. Segundo o regulamento. Mas se a enfermeira é boazinha “nós” podemos pendurar uma fotografia na parede. (mas é melhor não usar prego – deixam uma marca feia). Assim, “nós” podemos ficar deitadas e olhar fotografias da família e dos amigos que têm tanto a fazer, nas suas próprias vidas, a ponto de adiarem semanas a visita ao velho. Afinal “nós” temos tanto conforto. Algumas vezes, parece que as visitas são um aborrecimento. …
Mas quando pensamos que é nesses países da intelectualidade que se registam as criações mais poderosas de ambientes e caracteres humanos, como Shakespeare, ou Kafka, ou o quadro “O Grito” de Munch expressivo de total desespero humano, compreendemos quanto o tal “dolce far niente” da boémia sulista, também é necessário neste mundo imperfeito, onde existem crianças, como afirmou o Embaixador Francisco Henriques da Silva no seu artigo, “crianças africanas com fome, felizes com toscos brinquedos de lata improvisados e com um sorriso nos lábios em aldeias paupérrimas.” para concluir sobre o relativismo do conceito de felicidade “O que é a felicidade? É só a do Norte? Com cerveja e aquavit?”
De facto, uma tal doutrina de pureza rácica, tão do agrado ainda hoje, converteu-se em hediondo holocausto não há muitos anos. Esperamos, os da Europa do sul, não chegar a esse ponto de rejeição. Mas respeitemos melhor as regras. Do bom senso, pelo menos. Não por conta da unidade europeia, que isso é utopia, mas como cidadãos construtores de um mundo, de facto, mais equilibrado.
