A bem da Nação

DIVERTIMENTO PARA A TENSÃO

Os arcos das nossas jogadas


 


Esta pertence a Fedro,


Embora Esopo seja,


Com bastante destemor,


O seu inspirador-mor:


 


Um Ateniense viu Esopo a jogar às nozes


No meio dum grupo de crianças;


Parou e pôs-se a rir em altas vozes,


Julgando-o um tanto tanso.


O velho percebeu isso; e como as mais das vezes


Era ele que troçava e não o ridicularizado,


Colocou no meio da rua


Um arco afrouxado.


«Eh! Homem sábio, disse ele,


Adivinha, fazes o favor,


O que eu quis fazer.”


A multidão os rodeia, o nosso homem


Torce o miolo sem nada compreender


Da charada que, com ronha,


Esopo lhe propunha.


Confessa-se, enfim, vencido.


O sábio lhe afirmou então,


Cheio de razão:


“Tu depressa um arco romperás


Se o tiveres sempre esticado;


Mas afrouxa-o e poderás


Dele te servir quando quiseres,


Com muito melhor resultado.


 


Assim se deve por vezes


O espírito relaxar


Para seguidamente podermos dar


Mais condimento


Ao pensamento.


 


 


E pensarmos nós que relaxando, a espaços,


Na vida que vivemos, tensos,


Vamos conseguir dar mais condimento


Ao nosso pensamento!


O nosso pensamento está vocacionado


Para um rumo de relaxamento intenso


E continuado,


Que não permite um condimento denso


Na estrutura do nosso pensamento


Para um mais sábio resultado.


Relaxamento de divertimento,


Relaxamento nas acusações,


Relaxamento nas manifestações,


Relaxamento nos despedimentos,


Relaxamento nas ocultações


Nas faltas de transparência


De todas as governações,


Que não permitem mais que suposições


Aos questionadores das soluções


Para a nossa independência.


Não, o nosso pensamento tenso


Vive constantes distensões,


De relaxamento bento,


E por isso, naturalmente,


Não produz o necessário condimento


Para o nosso pensamento,


Que nos possa fazer erguer


Deste nosso fosso fundo,


De arco sempre esticado


Sem nunca, convenientemente,


Pôr o poço recheado.


 


 


 Berta Brás

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