Resumo da 2ª parte: O mundo está centrado no Dólar americano; a quezília euro-americana é injusta para os americanos, inconveniente para os europeus e não tem qualquer interesse estratégico relevante; os interesses cambiais europeus não são solidários no que respeita à cotação do petróleo; Portugal ficou sem voto no BCE e os europeístas não mostram vergonha mas o problema vai surgir quando os franceses virem que o eixo Paris-Berlim deixou de existir e que quem manda na UE são só os alemães; a Europa tem incompatibilidades intrínsecas que não lhe permitem competir com a América; a China ainda tem problemas políticos essenciais; o Brasil e a Índia são as esperanças do mundo ocidental.
Plausível Ora cá estamos novamente. Teve uma boa passagem de ano?
Utópico Sim, felizmente; em casa, com a família e alguns casais amigos.
Plausível Quer fazer um balanço de 2004?
Utópico Creio que todos os balanços que pudéssemos fazer se desvaneceriam perante essa calamidade que foi o tsunami no mar de Andaman. Perante tal enormidade, já reparou na mesquinhez da maior parte das coisas com que lidamos? Que sentido fazem hoje as políticas orçamentais e cambiais de Estados como a Indonésia e a Tailândia?
Plausível Claro que foi uma calamidade. Mas isso não impede que os assuntos de que temos falado sejam importantes.
Utópico Sim, são importantes. Mas de uma importância relativa. De um momento para o outro levamos um abanão ciclópico com os raios de Júpiter sob as ordens de Vulcano que nos põe de pantanas e lá se vão as nossas discussões políticas todas e mais algumas.
Plausível Acha, então, que perante uma dimensão dessas, não devemos discutir as políticas?
Utópico Faz todo o sentido discutir as políticas mas talvez devêssemos ser mais moderados e menos acalorados do que aquilo que frequentemente somos. É para mim claro que perante uma calamidade qualquer sociedade bem organizada se pode recompor com maior facilidade do que uma outra que tenha sido alvo de políticas erradas. Mais: uma sociedade culta terá certamente uma capacidade de auto-ajuda mais elevada do que uma outra que seja composta por analfabetos, esses que já num ambiente normal andam perdidos num mundo que lhes escapa. Portanto, estas calamidades são um incentivo para que discutamos as políticas mas num sentido em que primordialmente possamos assentar no que é essencial e que deve servir para todas as opções, deixando os pormenores às várias alternativas, essas que em democracia são representadas pelos diferentes partidos políticos.
Plausível Refere-se a pactos de regime?
Utópico Refiro-me a pactos nacionais, os que têm a ver com a essência da Nação. Há assuntos que devem ser assumidos solidariamente por republicanos, monárquicos, democratas e autocratas. E quando me refiro à solidariedade, não estou a atribuir-lhe o sentido político que está hoje tão divulgado e que resulta da expressão mais vernácula de que devem ser os ricos a pagar a crise. Refiro-me ao conceito jurídico-comercial do termo no sentido em que a responsabilidade individual se estende ao universo dos compromissos assumidos. Quando pertencemos a uma Nação, assinamos à nascença um aval que nos acompanha por toda a vida e ao abrigo do qual a nossa responsabilidade é ilimitada perante ela.
Plausível Mas a que assuntos se refere?
Utópico Todos aqueles que tenham a ver com calamidades, nomeadamente as de origem natural. Mas também a todos aqueles de outras origens e que ponham a Nação em risco. Julgo que o recente tsunami lhe dá exemplos suficientes mas também acredito que a sua imaginação seja capaz de descortinar os outros a que me estou a referir . . .
Plausível Vou pensar um pouco a ver se lá chego.
Utópico Há-de chegar, tenho a certeza. Dou-lhe uma pista: a Europa vai ter um fim igual ao de Isadora Duncan.
Plausível Bem: se estava baralhado, agora é que fico mesmo perdido de todo.
Utópico Depois de muita dança e fantasia, morreu estrangulada por um cache col ao volante de um Bugatti na Promenade des Anglais, em Nice.
Plausível E . . . ?
Utópico As fantasias federalistas que vão ao cerne das nações europeias, morrem estranguladas pelo PEC às mãos dos que não querem misturas numa fanfarronada que surge na sequência do Tratado de Nice.
Plausível Isso parece um enigma de Sherlock Holmes. Ou é uma premonição?
Utópico Não. Não tem nada de messiânico. Limita-se a ser uma figuração de meras coincidências. É uma piada. Talvez de mau gosto . . .
Plausível Numa época como esta Janeiro creio mais positivo passarmos aos votos de ano novo. Quer fazer algum em especial?
Utópico Sim, desejo que em 2005 não haja cataclismos como este que aconteceu agora no final de 2004.
Plausível Muito bem. Mas isso é um voto genérico. Não quer formular algum outro que esteja mais relacionado com o tipo de assuntos que temos abordado nas nossas conversas?
Utópico Sim, faço votos para que o Dr. Bagão Félix continue a ser o nosso Ministro das Finanças.
Plausível Para quem se recusa a discutir pessoas, estou espantado com esse seu voto . . .
Utópico Mas eu não estou a discutir pessoas. Estou a personalizar um conjunto de políticas com que concordo e que tenho muita pena que sofram uma solução de continuidade.
Plausível Tais como?
Utópico A todo o processo de down sizing da Administração Pública (não se esqueça de que o Dr. Bagão Félix é Ministro das Finanças e da Administração Pública), ao progressivo controlo fiscal das profissões liberais, ao objectivo de futura redução geral da carga fiscal, à continuação do esforço de contenção do défice orçamental.
Plausível E nos outros sectores do Governo?
Utópico É claro que haveria muitos votos para formular. Basta rever as nossas conversas desde os Diálogos Platónicos para conseguirmos alinhavar um quase completo Programa de Governo. Mas há um ponto que destaco sobre todos os outros pois falarei um pouco contra os meus próprios interesses.
Plausível E qual é?
Utópico A questão das rendas de casa. Eu sou proprietário de prédios urbanos e ao fim de quase 30 anos de actualizações, tenho inquilinos que me pagam em 2005 rendas mensais da ordem dos 10 Euros ou menos onde exploram a indústria hoteleira em zona da moda da movida lisboeta.
Plausível E não consegue despejá-los?
Utópico Como? Eles estão dentro da Lei; a Lei é que está errada.
Plausível E acha que a solução era o projecto de diploma que estava para sair?
Utópico Pois aí é que entro eu a falar um pouco contra mim próprio. Nós, os senhorios, queixamo-nos amargamente da Lei que está em vigor e da que a antecedeu e que vinha do tempo do Doutor Salazar pois já lá vão 70 anos que fazemos a substituição das Santas Casas da Misericórdia de Lisboa e do Porto no amparo aos desvalidos que não podem pagar mais pelos locais que habitam. Mas a verdade é que não é em época de contenção da despesa pública que podemos pensar numa solução que passa pela subsidiação pública de todos aqueles que não podem pagar as rendas que nós temos que receber e que em alternativa teriam que ir viver para debaixo das pontes. Se eu assumo convictamente a necessidade de redução drástica da despesa pública, como é que vou preconizar uma solução que passa pela atribuição de mais subsídios? O mínimo que posso fazer é desenvolver um esforço de coerência.
Plausível Então qual é a sua solução?
Utópico Todas as rendas comerciais ou de habitação correspondentes a contratos de arrendamento com mais de 20 anos, passavam a ser anualmente actualizadas numa percentagem igual ao dobro do IPC do ano anterior e isto durante um período relativamente longo de modo a que houvesse tempo de sem rupturas sociais como as que poderiam ocorrer com a Lei que estava para ser publicada acabar com a actual anormalidade.
Plausível E ao que é que chama um período relativamente longo?
Utópico O correspondente a duas revisões constitucionais consecutivas.
Plausível Porquê esse?
Utópico Porque não conheço outro período constitucionalmente mais longo.
Plausível Muito bem. Acho que chegou a altura de desejarmos um bom ano a todos os que nos lêem e de fazermos um pequeno intervalo.
Utópico Um voto à realização das nossas utopias!
Lisboa, Janeiro de 2005
Henrique Salles da Fonseca