A bem da Nação

Divagando pela utopia – 10ª parte


Resumo da 9ª parte: João Paulo II teve um papel muito importante no derrube do comunismo em conjunto com Reagan e a sua Guerra das Estrelas; o “software” é hoje mais importante que o “hardware”.

Plausível – Cá estamos de volta mas desta vez para tratarmos de Economia.
Utópico – Seja.
Plausível – Disse antes do intervalo que nos devemos doravante interessar mais pelo “software” do que pelo “hardware”.
Utópico – Disse e repito: o “hardware” é feito com as mãos e o “software” é feito com a cabeça. Mãos baratas por contraponto a cabeças caras. Até por este motivo nos interessa mais trabalhar com a cabeça do que com as mãos.
Plausível – Mas na Índia e na China já há muita gente a pensar em vez de trabalhar só com as mãos.
Utópico – E no Brasil, há que não esquecer. Olhe como os canadianos protestam com a concorrência que lhes faz a indústria aeronáutica brasileira.
Plausível – E protestam porquê?
Utópico – Porque estavam habituados a dividir o mercado mundial da chamada aeronáutica executiva com os americanos e não estavam preparados para que lhes entrasse pelo mercado dentro um novo fabricante com tecnologia própria, custos de produção mais baixos e, mesmo assim, obtendo lucros, lucros estes que os próprios canadianos nem sempre conseguem ter como garantidos.
Plausível – Mas os canadianos falam em dumping . . .
Utópico – Não o têm conseguido provar. Em comércio internacional diz-se que há dumping quando os preços de exportação são inferiores aos praticados no mercado doméstico de origem e, pelos vistos, isso não tem sido provado pelos queixosos. Portanto, o que há efectivamente é concorrência pura.
Plausível – E o que é que vai suceder à indústria têxtil europeia com o fim do Acordo Multifibras?
Utópico – Tudo o que seja produto barato passará a ser de fabrico europeu inviável. Eu acho que não vale mais a pena pensar nessas produções maciças baratunchas.
Plausível – E o que é que se faz às pessoas que trabalham nessas fábricas?
Utópico – Ah! Essa é uma boa questão a colocar aos políticos que nos meteram nesta situação. Para já, vai tudo para o desemprego. Depois, alguns vão arranjando uns biscates por aqui e por ali, outros vão morrendo e muito poucos vão tentar aprender a fazer alguma coisa de maior valor acrescentado. Temos que reconhecer que há uma geração perdida neste solavanco da globalização. Há muita gente que não tem formação profissional adaptada às novas realidades impostas pela queda das barreiras aduaneiras.
Plausível – E acha que a deslocalização resolve algum problema?
Utópico – Vamos deslocalizar toda a população do Vale do Ave para os contrafortes do Atlas em Marrocos? A deslocalização pode salvaguardar os interesses das empresas que se dedicam a produtos baratos mas não resolve o problema do operariado europeu dessas empresas. Desemprego puro e duro e não há discussão. Agradeçam aos políticos que nos têm guiado neste processo de globalização.
Plausível – E como é que devia ser?
Utópico – Esses países deviam ter as suas exportações para a Europa condicionadas à redução devidamente controlada pela comunidade internacional dos défices que têm a nível dos direitos humanos, da democracia, das condicionantes ambientais.
Plausível – E quem é que havia de controlar isso?
Utópico – A ONU, a OMC, a própria CE. Mas não fique tão perplexo com o que lhe estou a dizer porque bem recentemente, a China legislou um aumento de 67% nas férias anuais dos trabalhadores por conta de outrem.
Plausível – Ah! Essa é uma boa notícia.
Utópico – Sim, na China os trabalhadores viram as suas férias anuais aumentarem de 3 para 5 dias! É um aumento de 67%.
Plausível – Mas isso é ridículo!
Utópico – Tão ridículo como a abertura dos nossos mercados a produtos fabricados por esse mar de ignóbil exploração. Está-se mesmo a ver que antes que o princípio dos vasos laborais comunicantes funcione entre a China e a Europa, já morreu pelo menos uma geração de europeus desempregados.
Plausível – E acha que o Governo português deve apoiar a indústria têxtil?
Utópico – O Governo português – como todos os outros Governos europeus – tem que optar entre aceitar o fim puro e simples do Acordo Multifibras como já decidiram ou apoiar a indústria têxtil. As duas coisas em simultâneo não faz qualquer sentido. Fizeram asneira e agora têm que responder perante o eleitorado desempregado. A sorte desses Senhores é que no espectro político não aparecem cá na Europa forças políticas alternativas com um mínimo de credibilidade. Portanto, em cada país vão alternando entre dois ou três Partidos que fingem que dizem coisas diferentes e tudo segue paulatinamente como os americanos querem.
Plausível – Os americanos?
Utópico – Se não fossem os americanos, acha que a globalização se fazia como está a correr? Tudo começou com a visita de Nixon à China no tempo em que Chu En Lai era Primeiro Ministro e o Presidente Mão Tsé Tung já não dizia coisa com coisa. E quem é decidiu a mudança do GATT em OMC?
Plausível – Os americanos também?
Utópico – Claro que foram eles. O enquadramento dos Serviços no comércio internacional era fundamental para os Estados Unidos. Naquela altura a economia americana já tinha cerca de 50% de Serviços e hoje já ultrapassa os 60%. A Europa anda completamente a reboque dos americanos também nesta matéria.
Plausível – E acha que a Europa consegue ter uma política autónoma, por exemplo em relação a África?
Utópico – Todos sabemos que a solidariedade europeia é uma fraude completa. Então na perspectiva comercial, o que interessa a uns, desinteressa aos outros e só não se esgatanham em público se não puderem: tira-te tu para me pôr eu.
Plausível – E no plano da cooperação?
Utópico – Esse é um grande negócio para muita gente de ambos os lados. Dos que dão e dos que recebem.
Plausível – Como assim?
Utópico – Façamos de conta que estamos a lidar só com gente séria, que só pugna pelos legítimos interesses do respectivo país. Não metamos aqui o “bakshish”.
Plausível – Pelo tom irónico que está a usar, vejo que se trata de um cenário apenas teórico.
Utópico – Um Governo de um país pobre dirige-se a um país rico e negoceia uma linha de crédito com um sindicato bancário para a compra de equipamentos necessários ao desenvolvimento. “Muito bem, tome lá o dinheiro que está a pedir”, diz o rico. O Governo pobre agarra nesse dinheiro e compra os produtos ao país rico que fornece os ditos equipamentos a troco do dinheiro emprestado. O dinheiro regressa assim de imediato ao país rico (ou nem dele chega a sair). O Governo pobre leva os produtos, usa-os melhor ou pior e começa a amortizar o empréstimo. Quando a amortização chega ao fim, eis que no país rico acaba de entrar pela segunda vez a verba emprestada. Negócio saldado? Não, faltam os juros do empréstimo. Eis como se acumula a dívida do terceiro mundo. Então agora, junte-lhe o “bakshish” e vai ver como tudo se complica.
Plausível – É, então, a favor do perdão da dívida dos países do terceiro mundo?
Utópico – Não, não! Não concordo minimamente com o perdão dessa dívida. Na encenação que fiz há pouco, apresentei macro-dimensões mas as relações objectivas são de dimensão micro. O sindicato bancário que emitiu a linha de crédito a favor do país pobre emprestou dinheiro e tem que o receber de volta acrescido dos juros previamente negociados e os equipamentos foram fornecidos por empresas que têm que receber o respectivo valor. Portanto, aquela encenação inicial é verdadeira mas apenas numa escala macroeconómica e não é miscível com as múltiplas dimensões micro que actuam na cena. A pressão internacional tão em voga actualmente para o perdão da dívida do terceiro mundo está a ser liderada por quem não distingue macro e microeconomia. São normalmente pessoas e instituições religiosas que não têm uma cultura técnica económica que lhes permita distinguir os diferentes planos que de facto se colocam e propõem soluções que não fazem qualquer sentido. Estamos a lidar com o materialismo e não com o esoterismo.
Plausível – E, então, qual é a solução?
Utópico – A solução tem sido procurada na doação de capital; os países doadores de capital reúnem-se regularmente nas chamadas Conferências de Doadores e analisam a situação do país recebedor.
Plausível – E isso porque se considera que as Economias pobres não conseguem alcançar a acumulação de riqueza suficiente para lhes permitir o arranque?
Utópico – No plano da teoria, sim, é essa a razão.
Plausível – E no plano da prática?
Utópico – A cooperação é financeiramente inócua para quem dá. À semelhança do que há pouco encenei, a maior parte do dinheiro que é dado – se chega a sair do país doador – regressa passado pouco tempo numa percentagem que ultimamente se estima em cerca de 80%. Portanto, o custo da cooperação rondará os 20% no curto prazo e poderá mesmo ser nulo no médio prazo ou até mesmo lucrativo pela dependência que os novos hábitos de consumo possam criar. E, entretanto, alimenta-se essa grande indústria que hoje já são as ONG’s. E enquanto os ONGueiros europeus andarem entretidos com essas acções, não incomodam no desemprego e ficam devedores do Poder. E o Poder gosta de ter essa gente como refém das suas benesses.
Plausível – Sim, isso do lado de quem dá. Mas e do lado de quem recebe?
Utópico – Do lado de quem recebe, nada se discute porque “a cavalo dado não se olha o dente”. Melhor dizendo: os receptores não chegam mesmo a dizer nada porque são as ONG’s que se dedicam de motu próprio a esta e àquela causa, que angariam os fundos com que funcionam e que os aplicam. Só na cooperação entre Estados é que pode haver algumas matérias a discutir mas de um modo geral quem recebe limita-se a aceitar.
Plausível – E acha que essa cooperação institucional Estado a Estado ou através das ONG’s tem sido positiva?
Utópico – Respondo-lhe com outra pergunta: como seria se não houvesse esta cooperação?
Plausível – Não sei.
Utópico – Não sabe Você nem sabe ninguém. Eu quero acreditar que há ONG’s boas e outras que não valem nada; que há ajudas de Estado bem aplicadas e outras que apenas alimentam vícios. Deve haver de tudo: do bom e do mau, do importante ao irrelevante, do que tem efeitos a prazo imediato e do que só actua no longo prazo. Não é, contudo, esta disparidade que põe a cooperação em causa; as dúvidas têm sobretudo a ver com a transparência dos regimes políticos nos países receptores, com o “bakshish”, com o carácter mais ou menos filantrópico ou mais ou menos interesseiro do país doador.
Plausível – E como é que acha que o processo deve evoluir?
Utópico – Na minha opinião, as ONG’s devem cada vez mais funcionar sem quaisquer subsídios públicos. Se não são governamentais, então assumam-se como tal e captem apoios privados. Mostrem trabalho credível e publicamente medido em conformidade com parâmetros claros de modo a que possam pertencer a listas aprovadas pelos Estados como elegíveis para efeitos de aplicação da Lei do Mecenato aos financiadores.
Plausível – As lutas e cunhas para que se enquadrem nessas listas . . .
Utópico – Mas essa será mais uma das missões a atribuir aos Institutos para a Cooperação: a distinção das ONG’s que pertencem à seara do trigo e as que não passam de joio.
Plausível – Mas voltando à questão inicial: acha que a Europa é capaz de desenvolver uma política coerente com África?
Utópico – Não. Acho que a Europa é uma fraude na perspectiva da solidariedade e, portanto, não é sequer politicamente viável como um todo.
Plausível – Nunca o julguei tão euro-céptico. Quer explicar todo esse seu cepticismo?
Utópico – Sim, quero. Mas só o farei depois do intervalo. Até já.
Plausível – Até já.

Lisboa, Maio de 2005

Henrique Salles da Fonseca

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