Plausível - Quer continuar a conversar sobre economia?
Utópico - Sim, quero mas num plano mais teórico do que prático.
Plausível - Não quer abordar temas plausíveis?
Utópico - Prefiro o campo da utopia.
Plausível - Mas corremos o risco de ficarmos desligados da realidade...
Utópico - Essa eventualidade será sempre aparente. A pureza dos raciocínios cria os princípios e sem princípios não há moral. A economia move-se no campo da moral e, portanto, tem que ter princípios. Para que estes existam, temos que lhes dar o substrato dos raciocínios puros e estes não são, por definição, plausíveis; a plausibilidade tem a ver com a realidade e esta não é pura mas sim complexa.
Plausível - Mas, então, como é que havemos de chegar à complexidade se só temos raciocínios puros?
Utópico - A economia e a moral não são como o porco e a máquina de fazer salsichas. Ou, se quiser, como o fiambre e o presunto. Plausível - Então, afinal, quem é que é o Plausível e quem é o Utópico? O que é que a moral tem a ver com as salsichas?
Utópico - Se Você meter o porco no princípio da máquina, do outro lado sai o chouriço mas se puser a máquina a funcionar ao contrário, não consegue refazer o porco a partir do chouriço. Com a moral e com a economia, a retrocessão é perfeitamente possível porque podemos fatiar a realidade, definir princípios com base na ideia pura correspondente a cada parcela e reagrupar tudo de modo a ficarmos novamente com a realidade mas agora vista à luz dos princípios da moral, da ética.
Plausível - E a que nos conduz tal processo? Utópico A uma raridade chamada política ética. Plausível E acha que há ética na política? Utópico - Vocês, os práticos, chamam política ao que não passa de mexeriquice. A política nada tem a ver com isso; política é o modo de alcançar um objectivo a partir de uma situação inicial. Isso a que Vocês chamam política, não passa de estratégia que, no dicionário de Cândido de Figueiredo, significa ardil, astúcia, manha. Os políticos profissionais não passam disso mesmo: uns manhosos.
Plausível - A propósito. Não quer falar sobre a actual situação política portuguesa?
Utópico - Franz Kafka teria adorado viver em Portugal neste início do século XXI, sobretudo se pudesse ter a companhia de Sherlock Holmes ou do Inspector Simenon. Aportuguesando, creio que nos falta trazer de volta o Eça de Queiroz e aquela grandiosa "ramalhal figura" para melhor podermos saborear alguma síntese do actual enquadramento em que os profissionais da política nos puseram. Para aguçar o engenho da imaginação, o Presidente da República aparece com expressões de grande sabedoria, afirmando que vai continuar como sempre pautado pelos princípios da serenidade emocional, da boa fé e da lealdade institucional. Esperemos que, do alto da poltrona do poder, Sua Excelência consiga alcançar uma visão global da situação, a que nós, cá por baixo, não conseguimos distinguir os contornos. É unânime a certeza em Portugal de que o Chefe do nosso Estado é essencialmente sereno, exerce o seu altíssimo cargo sem preconceitos na defesa do interesse nacional e reconhece as funções das demais instituições democráticas. As declarações de Sua Excelência que vieram a lume são, portanto, redundantes uma vez que nada acrescentam relativamente às mais profundas certezas do povo. Quando os jornais divulgam essas declarações, estão torpemente a admitir que alguma vez Sua Excelência não tenha sido serena, tenha actuado com vileza ou ultrapassado outras instituições nas missões que lhes estão constitucionalmente consignadas. É para mim claro que se trata de um mau serviço prestado pelos jornais ao país. Creio também que é extremamente honroso para Portugal que o Presidente da Comissão Europeia seja o Dr. Durão Barroso mas já não creio que Portugal possa daí extrair grandes vantagens pois ao Presidente da CE não cabe distorcer as regras do jogo e este está imaginado para a defesa intransigente dos interesses de outros que não Portugal. Os exemplos de políticas especialmente favoráveis aos interesses dos Estados Membro do norte europeu são tantos - basta olhar para a Política Agrícola Comum - que já quase nos perdemos na sua inventariação. Contudo, foi por causa dessa minudência estratégica para Portugal que tivemos que mudar de Primeiro Ministro e foi esse o pretexto para tanta confusão. Ou seja, passámos a ter um Presidente português na Europa perdendo um Primeiro Ministro em Portugal; pouco ou nada ganhámos na Europa e arranjámos um molho de brócolos em Portugal. Prescindo de mais qualificar a transacção. Serenadas as hostes socialistas, eis que o Chefe do nosso Estado considera oportuno fazer um balanço do enquadramento político geral do Governo e, na sua proverbial serenidade e transparência, conclui que o saldo é negativo e que se deve proceder a uma antecipação da fotografia da família. Não interessa saber se na Assembleia Geral há ou não um conjunto coeso de accionistas em condições estatutárias de assegurar os destinos da empresa. Sua Excelência não gosta desses accionistas e derruba-os abrindo o precedente de não se tomar mais em consideração o previsto nos Estatutos e a todo o momento se poder destituir a Direcção. A fotografia de família vai ser tirada em prazo suficientemente curto para que não haja tempo de substituir o Director Geral. A rotatividade do exercício democrático do Poder vai entrar em funções e Sua Excelência vai dormir sossegada porque exerceu o seu mandato com serenidade, boa fé e no pleno respeito pelos demais órgãos de soberania. Não vai?
Plausível - Vai, claro que vai...
Utópico - Não se esqueça de que eu falo em termos de utopia. Você é que deve tratar dos assuntos plausíveis. Eu sou o lunático; Você, o terráqueo.
Plausível - Isto hoje promete. Com mais uma diatribe dessas e preenchemos o espaço disponível para hoje. Não quer requalificar as nossas posições para irónico e verosímil?
Utópico - Não. Pretendo continuar como estamos desde princípio; este foi um fait divers.
Plausível - Muito bem. Continuemos, pois, como começámos. O que tem para dizer relativamente à depreciação do Dólar?
Utópico - Trata-se da vingança do Tio Sam contra a Europa por esta lhe andar a estragar o jogo.
Plausível - Como assim?
Utópico - Olhe: creio que esse será um pretexto magnífico para a próxima sessão. Vamos fazer um intervalo?
Plausível - Sim, intervalemos.
Lisboa, Dezembro de 2004