A bem da Nação

DIA DE FINADOS

 


 


QUANDO

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta,
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

* * *

"... E de novo acredito


que nada do que é importante


se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos,


julgando ser donos das coisas,


dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei,


todos os amigos que se afastaram,


todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada,


apenas a ilusão


de que tudo podia ser meu para sempre...”


 SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1919-2004)

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