A bem da Nação

DIA DE ANOS

 


 


Passa hoje o seu aniversário


A minha amiga que tão bem canta


E ora em qualquer hora.


E até perora,


Que agora


Há sempre "matéria a nunca ouvido canto"


Do nosso pranto,


Embora


Por vezes também


Do nosso riso com pouco siso.


Intimamente, sei que ela


Irá cantar o “Ai quem me dera


Ter outra vez vinte anos”


Pois saudade não lhe falta


Dos tempos de outrora.


Por isso a ela


Dedico esta fábula


Em que La Fontaine premeia


Os que sabem cantar,


E orar.


 


«O cisne e o cozinheiro»


 


Num pátio de aves ocupado


Viviam o cisne e o ganso:


Aquele aos olhares do dono destinado,


Este ao seu paladar;


Um gabava-se de ser


Comensal do jardim, o outro da mansão,


Com muita satisfação.


Fazendo dos fossos do castelo os seus passeios,


Ora os viam lado a lado nadar,


Ora sobre a onda deslizar ou mergulhar,


Sem os seus vãos desejos satisfazer.


Um dia o cozinheiro,


De um trago bebendo em demasia,


Tomou pelo ganso o cisne


E, pelo pescoço o segurando, ia


Degolá-lo, para fazer sopa dele


Sem nenhuma cortesia.


A ave, prestes a morrer, em triste canto


Desfez-se em pranto.


O cozinheiro ficou muito surpreendido


Com o sucedido


E viu logo que se tinha enganado.


“O quê! Eu seria capaz


De na sopa pôr


Um tal cantor?


Não, praza aos deuses que jamais


A minha mão corte a garganta


A quem dela se serve com tanta pinta.”


Assim, nos perigos que nos seguem de perto


E na hora sagrada,


O doce falar não prejudica em nada.»


 


É o que esperamos.


Cantemos, como o cisne, antes de morrermos,


Para não morrermos


Às mãos dos cozinheiros bêbedos


Não das “bebedeiras de azul”


Mas do tinto.


Embora


Para nós seja sempre a hora


De o fazermos:


Cantarmos


Para a garganta safarmos


Da degola


Neste nosso lago


Neste nosso fosso.


Cantemos.


 


 Berta Brás

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