A bem da Nação

“DEUS GUARDE O HOMEM DE MULA QUE FAZ «HIM» E DE MULHER QUE SABE LATIM” - 2

 


 


De Pero Garcia Burgalês, a desmistificação da morte por amor, masculina:


 


Roy Queimado morreu com amor
en seus cantares, par Sancta Maria,
por hunha dona que grã bē queria;
e, por se meter por mays trobador,
por que lhe ela non quis ben fazer,
feze-ss' el en seus cantares morrer,
mays resurgiu depoys ao tercer dia!


 


Esto fez el por hunha ssa senhor


que quer gram ben, e mays uos en dirya:
por que cuyda que faz hi maestria,


enos cantares que fez a ssabor


de morrer hy, e des y d 'ar uyuer;


esto faz el que x’o pode fazer,


mays outr ' omen per rē non o faria.


 


E non á ia de ssa morte pauor.
senõ ssa morte mays la temeria,
mays sabe bê, per ssa sabedoria,
que uyuera, des quando morto for,


e faz-(s’) en sseu cantar morte prender,
des y ar uiue: uedes que poder


que Ihi Deus deu, mays que nõ cuydaria.


 


E, sse mi Deus a min desse poder
qual oi ' el á, poys morrer, de uiuer,


ia mays morte nunca temeria.


 


            Mas o pessimismo masculino sobre as virtudes da Mulher, tão repetidamente embelezada no descritivo poético, originou por vezes graciosa sátira, caso do vilancete “Contra as Mulheres” de Jorge de Aguiar, poeta do Cancioneiro Geral, publicado em 1516, e que interpela o seu coração atribulado nos desmandos das paixões:


 


Esforça meu coração,


não te mates, se quiseres


lembra-te que são mulheres.


 


Lembra-te que está por nascer


nenhuma que não errasse,


lembra-te que seu prazer,


por bondade, e merecer.


não vi quem dele gostasse;


pois não te dês à paixão,


toma prazer se puderes,


lembra-te que são mulheres.


 


Descansa, triste, descansa,


que seus males são vinganças,


tuas lágrimas amansa,


leixa suas esperanças.


Ca pois nascem sem razão,


nunca por ela lh’esperes,


lembra-te que são mulheres.


 


Tuas mui grandes firmezas,


tuas grandes perdições,


suas desleais nações


causaram tuas tristezas.


Pois não te mates em vão,


que quanto mais as quiseres,


verás que são as mulheres.


 


Que te presta padecer,


que te aproveita chorar,


pois nunc’ outras hão de ser


nem são nunca de mudar?


Deixas com sua nação,


seu bem nunca lho esperes,


lembra-te que são mulheres.


 


Não te mates cruamente


por quem fez tão grande errada,


que quem de si se não sente,


por ti não lhe dará nada.


Vive lançando pregão


por u fores e vieres,


que são mulheres mulheres.


 


CABO


 


Espanha foi já perdida


por Letabla uma vez,


e a Tróia destruída


por males que Helena fez.


Desabafa, coração,


vive, não te desesperes,


que a que tez pecar Adão


foi a mãe destas mulheres. (Jorge de Aguiar).


           


(continua) 


 


 Berta Brás

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