A bem da Nação

DESTINOS

 


 


Mais uma de Florian que já agora


Podemos aceitar como se fora


Feita para nós sem mais demora,


Que andamos por aqui todos à nora


Pecadores por direito e muita honra.


Até aterra! Poça!


(Mas quem preferir mais precisão,


Na exclamação,


Pode, em vez do c cedilhado,


Pôr na expressiva interjeição


Os rr do nosso eu irritado.


Sem nenhum intento inferior


De ofender seja quem for):


 


«A toupeira e os coelhos»


 


Cada um de nós conhece às vezes bem os seus defeitos.


Reconhecê-los é outra questão;


Prefere-se muitas vezes sofrer os males


Com todos os seus feios jeitos


A confessar que os nossos defeitos


São deles a verdadeira razão.


Lembro-me a este respeito


De ter testemunhado um feito


Bastante espantoso e difícil de crer.


Mas eu assisti, não há que duvidar,


Eis a história que vos vou contar:


Perto de um bosque, ao entardecer,


A um canto de soberba pradaria


Uns coelhos divertiam-se, sobre a relva florida


A brincar à cabra-cega com grande energia.


Coelhos! direis vós, é impossível!


Nada é mais certo, todavia:


Uma folha flexível


Sobre os olhos de um deles


Em banda era aplicada


E depois ao seu pescoço atada. A coisa era de truz:


Aquele a quem a fita privava de luz


Ficava no meio, os outros em redor


Com grande ardor


Saltavam, dançavam, faziam maravilhas,


Afastavam-se, vinham alternadamente


Puxar-lhe a cauda ou as orelhas.


O pobre cego, então, voltando-se de repente


Sem recear tormenta, lança ao acaso a pata.


Mas o bando escapa-se à pressa,


Ele apenas apanha vento, em vão se dana,


Ficará lá, pela certa,


Até de manhã.


Uma toupeira estouvada,


Que debaixo da terra ouviu o barulho


Sai imediatamente do seu entulho


E vai ver o sarilho.


Vocês bem podem supor


Que nada enxergando, cegueta,


Foi apanhada como uma seta


Na brincadeira sem meta,


Como foi a tão conhecida


Da lebre e da tartaruga.


Senhores, disse um coelho doutor,


Seria de boa consciência,


E a justiça assim o requer,


Que à nossa irmã façamos um favor,


Ela está sem olhos e sem defesa:


Assim, sou de opinião…


Não! Responde com calor


A toupeira: fui apanhada,


Justamente agarrada,


Ponham-me a banda…


- De bom grado, minha cara,


Aqui está; mas acho que será bera


Se o nó ficar demasiado


Apertado.


- Perdoe-me, senhor,


Respondeu ela com grande ira,


Apertem bem, porque estou a ver,


Apertem mais, e mais,


Que ainda estou a ver.


 


E aqui está como uma toupeira


Useira e vezeira a escavar no chão


É apanhada de supetão


No vaivém esporádico


De um coelho cego,


Em aparato lúdico.


O orgulho burro


Ou apenas casmurro


Da toupeira


De permanente cegueira


A impede de reconhecer


Que a sua cegueira é causa constante


Do seu sofrer.


E aqui está como nós outros,


Toupeiras de cegueira permanente


Que Saramago descreveu calorosamente,


Nos metemos na mixórdia triste


Da discussão de dedo em riste


E espada fruste.


E não arredamos pé das nossas posições,


Que a empáfia de nos querermos afirmar


Nos livra de darmos o braço a torcer


Mesmo que saibamos que nos estamos a espetar


Só a barafustar, a barafustar,


Ceguinhos a mergulhar


Na terra seca do nosso deserto


No poço fundo do desacerto,


Jamais querendo confessar


A parte da culpa que nos cabe.


Diz quem sabe


Diz Florian


Que sempre soube.


 

 Berta Brás

0