CAPACIDADE/NECESSIDADE LÍQUIDA DE FINANCIAMENTO DE PORTUGAL
O crédito não é um direito: merece-se ou não; conquista-se e perde-se. Portugal mereceu crédito, perdeu-o e tenta agora recuperá-lo.
Mereceu crédito enquanto era ou parecia ser viável e os detentores dos capitais acreditavam que os empréstimos que faziam consistiam em operações de tesouraria atenuantes das cavas nos ciclos económicos; perdeu o crédito quando os credores se aperceberam de que o «modelo de desenvolvimento» português era absurdo; tenta agora recuperá-lo introduzindo mudanças estruturais no modelo vicioso, despesista, transformando-o em produtivo.
O esgotamento da capacidade de crédito externo do sistema bancário foi o maior incentivo à produção interna de bens transaccionáveis; a substancial redução dos meios de pagamento em poder dos consumidores, foi o maior incentivo para que o empresariado consciente e dinâmico enveredasse pela exportação.
O escol empresarial português não perguntou ao Governo o que deveria fazer: fez!
E os resultados são evidentes com a balança de bens e serviços a sair de negativismos que já todos julgávamos eternos e a apresentar sucessivos saldos positivos.
Mas a pergunta que nos ocorre agora tem a ver com a capacidade do sistema bancário se redimir do desbragamento creditício ao consumo que praticou até há pouco, com a capacidade de reforço dos capitais próprios reintegrando substanciais volumes de crédito concedido mais ou menos «à la diable» e hoje logicamente mal parado, com a capacidade de relançamento de linhas de crédito à produção de bens e serviços transaccionáveis.
A recuperação económica de Portugal não pode passar ao lado do sistema bancário mas é imprescindível que quem concede crédito também seja credível. A começar pelo próprio Banco de Portugal e sua actividade de supervisão.
Chamemos-lhe como cada um de nós quiser mas os próximos dinheiros que Portugal vier a receber a título de apoio à recuperação não poderão ter outro destino que não a consolidação bancária. Por mais que as esquerdas políticas blasfemem.
Mas esperemos que essa nova situação não sirva para repetir os erros que nos atiraram para o buraco pela vulgata consumista. Não nos esqueçamos de que devemos ser dos países com maior propensão marginal à importação; não nos esqueçamos de que o consumidor tem agora que pagar o que ficou a dever na crise anterior; não nos esqueçamos de que deverão ser as actividades produtoras de bens e serviços transaccionáveis a absorver as hostes de desempregados pela falência das actividades típicas do «modelo de desenvolvimento» que definiu um capítulo da vida nacional que queremos ver encerrado.
Até porque democracia não é sinónimo de facilitismo; pelo contrário, é-o de responsabilidade.
Setembro de 2013
in Revista INDÚSTRIA, CIP, Outubro de 2013
