A bem da Nação

DE CAMÕES A BOCAGE

 


Camões (1525? - 1580, 10 de Junho)


{"Ele é a montanha, já que os mais são colinas", João de Deus}


 


 


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Muda-se o ser, muda-se a confiança,


Todo o mundo é composto de mudança, 


Tomando sempre novas qualidades.


 


Continuamente vemos novidades,


Diferentes em tudo da esperança;


Do mal ficam as mágoas na lembrança,


E do bem - se algum houve -, as saudades.


 


O tempo cobre o chão de verde manto,


Que já coberto foi de neve fria,


E enfim converte em choro o doce canto.


 


E, afora este mudar-se cada dia,


Outra mudança faz de mor espanto:


Que não se muda já como soía.


 


(Parece não haver a certeza de que este soneto seja de Camões)


 


 


 


Paulino António Cabral (Abade de Jazente) (1719-1789)


(Um dos grandes poetas satíricos...)


 


Um dos meus bisavós foi mercador,


Outro foi de alfaiate oficial,


Outro rendeiro foi sem cabedal


E outro, que juiz foi, foi lavrador.


 


O meu paterno avô foi professor


De latim, que ensinou ou bem ou mal;


E o materno viveu no seu casal


De que inda agora eu mesmo sou senhor.


 


Meu pai médico foi, e homem de bem,


Minha mãe "dom" teria, porque enfim


Muitas menos do que ela agora o têm.


 


Abade eu fui; se saber de mim


Alguma coisa mais quiser alguém


Saiba que versos faço e faço assim.    


 


 


Bocage  (1765-1805)


O maior sonetista português, depois de Camões. Foi guarda-marinha e como tal esteve na Índia e em Macau. Voltando à vida civil, em Lisboa, viveu,  Deus sabe lá como. Muito namoradeiro e devasso, vivia do rendimento dos seus versos. Esteve preso na Inquisição, que nesse tempo era já benévola  hospedeira das almas atrevidas e altamente críticas, como era a de Bocage através das suas poesias insolentes e picarescas.


 


Auto-retrato


 


Magro, de olhos azuis, carão moreno,


Bem servido de pés, meão na altura,


Triste de facha, o mesmo de figura, 


Nariz alto no meio, e não pequeno:


 


Incapaz de assistir num só terreno,


Mais propenso ao furor do que à ternura;


Bebendo em  níveas mãos por taça escura


De zelos infernais letal veneno:


 


Devoto incensador de mil deidades


(Digo, de moças mil) num só momento,


E somente no altar amando os frades:


 


Eis Bocage, em quem luz algum talento;


Saíram dele mesmo estas verdades


Num dia em que se achou mais pachorrento.


 


(Note-se a palavra "facha". É a palavra italiana "faccia" = rosto)


            


 


Conhecem-se centenas de sonetos de Bocage, que ele compôs, diz-se, espontaneamente, como quem falava. Alguns são fesceninos (obscenos), mas sempre magistrais. Morreu novo (40 anos de idade), talvez tuberculoso,  arrependido à hora da morte:


 


Já Bocage não sou!... À cova escura


Meu estro vai parar desfeito em vento...


Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento 


Leve me torne sempre a terra dura:


 


Conheço agora já quão vã figura


Em prosa e verso fez meu louco intento;


Musa!...  Tivera algum merecimento


Se um raio da razão seguisse pura!


 


Eu me arrependo; a língua quase fria


Brade em alto pregão à mocidade,


Que atrás do som fantástico corria:


 


Outro Aretino fui... A santidade


Manchei! ... Oh! Se me creste, gente ímpia,


Rasga meus versos, crê na eternidade!


 


Este soneto foi ditado à hora da morte, quando o Poeta estava já na agonia final.


 


 


Joaquim Reis

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