A bem da Nação

«DAS PEDRAS NÃO NASCEM ORQUÍDEAS»

 


 


Referia-se a Autora desta frase, Manuela Gonzaga, no seu livro «Moçambique – Para a mãe se lembrar como foi», à sordidez da vida em ambiente de guerra mas logo que a li me lembrei de que dos telejornais também nada de positivo pode resultar tanto para quem directamente os vê como para a sociedade que alberga tão desgraçados telespectadores.


 


Dá até para nos perguntarmos como é possível que haja quem ganhe a vida a divulgar tudo quanto de mais sórdido se passa pelo mundo numa campanha que parece visar a conquista duma competição de parangonas sobre a desgraça que «eles», os malvados (nem sempre identificados), lançam sobre uma mole de desgraçadinhos a quem a justiça é torpemente sonegada.


 


E se a escolha da informação a emitir segue o critério da exploração do escândalo, da desgraça dos pequenos e da injustiça perpetrada pelos grandes, isso nada mais pretende do que avivar a morbidez dos espíritos desatendidos pela cultura, dar seguimento aos demagogos que anos a fio propagandearam que tudo são direitos e que só «eles», os de cima, é que têm obrigações[1]. Quem são esses «de cima»? Não interessa! São «eles», numa geometria variável ao gosto de cada um dos desgraçadinhos a quem a informação se destina. E quantos mais estes forem, melhor. A publicidade paga.


 


Nivelar por baixo a qualidade da mensagem transmitida para nivelar por cima a receita recebida.


 


Ética? Connais pas!


 


O «fazedor» de noticiários parece não ter um critério selectivo de qualidade da informação transmitida, de conveniência educativa, de oportunidade global; pelo contrário, parece que para ele há que informar sistemática e exaustivamente temendo que alguém o apelide de censor, tem a certeza de que não é a si que cabe qualquer função educativa e quanto à oportunidade isso é matéria que a outros deve preocupar pois a si próprio cumpre fazer a agenda da oportunidade e os outros, os «eles», que se adaptem.


 


Bem comum? Connais pas!


 


Tudo isto porque a moral deixou de ser imperativa, passou a ser doce e apenas na medida em que seja tolerada.


 


Contudo, a ética ainda hoje fixa os limites legítimos da acção humana restando apenas definir essa legitimidade. Lá iremos, na esperança de fazermos nascer orquídeas no meio das pedras que Fernando Pessoa foi encontrando e com que construiu um castelo.


 


Agosto de 2014


 


 Henrique Salles da Fonseca






[1] - «OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE»          



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