A bem da Nação

DANÚBIO AZUL – 5

 


 Castelo de Bratislava


 


O réveillon a bordo foi igual a todos os réveillons embarcados ou em terra: champagne, serpentinas, chapelinhos, música e um ror dessas baboseiras triviais que sempre ouvimos em todos os réveillons. Este teve apenas a particularidade de ter sido comemorado em conjunto com toda a tripulação do barco – não imagino quem tenha ficado na ponte de comando a controlar o piloto automático mas eventualmente pode ter sido um ajudante de cozinheiro pois no salão estavam todos os que podiam envergar farda azul e branca.


 


A soupe à l’oignon servida logo aos primeiros minutos de 2014 estava de estalo e servi-me duas vezes (por gula, claro).


 


Pela hora do pequeno-almoço atracámos ao cais de Bratislava e foi pouco depois que desembarquei para dar um giro até à hora do almoço. Sem guia e não sabendo eslovaco, não me poderia aventurar muito mas, afinal, o alemão era por ali mais corrente que o universal inglês.


 


Já contei que mal pus pé em terra fui saudado por um cão «grand danois» (a que por ali chamam «dogue alemão») e que assisti à missa de ano novo na catedral mas o que eu não disse ainda foi que, momentos antes de desembarcar, nos pareceu a todos que o mundo estava a desabar ou que a terceira guerra mundial estava a começar. Dava-se o caso de estarmos atracados a poucos metros de distância da antiga Cortina de Ferro – e, mais concretamente, estávamos «do lado de lá» – o que para quem viveu durante a Guerra-fria tem uma certa carga emocional. E eis se não quando são disparados tiros da mais violenta artilharia que alguma vez ouvi mesmo tendo cumprido o Serviço Militar em dois continentes durante três anos, três meses e três dias (e desconfio que três horas pois sei que assentei praça às 13,45 horas e admito perfeitamente ter passado à disponibilidade pelas 16,45). Os canhões disparavam relativamente perto de nós, na margem contrária e saudavam a independência eslovaca que ocorrera 21 anos antes. Não sei se a surdez afecta muitos eslovacos e, portanto, as saudações teriam que ser assim tão sonoras mas o que eu sei é que vão todos ensurdecer se continuam a comemorar deste modo. Curiosamente, fizeram todo aquele estardalhaço no preciso local a partir do qual Napoleão mandara bombardear a cidade. Mais: os canhões actuais estavam assestados exactamente no mesmo azimute que os do então invasor em vez de no oposto como qualquer simulação de defesa poderia sugerir. Não encontrei quem mo explicasse em língua por mim entendível e creio que o Embaixador americano não tenha lavrado qualquer protesto pelo facto de a putativa trajectória dos putativos projécteis coincidir com a localização da sua Embaixada. Se ele não se preocupou, para que haveria eu de me preocupar?


 


Findos os zumbidos na parte de dentro das orelhas, eis-nos almoçados e a caminho do castelo...


 


Dizem os panfletos turísticos que Bratislava tem cerca de 400 mil habitantes mas a mim pareceu-me pouco maior que Tavira. Não sei onde se mete tanta gente nem onde vão buscar alunos para as três Universidades que dizem ter na cidade mas se o dizem é porque é capaz de ser verdade. Depois daquele tiroteio todo, tudo soa a verdade. «Não acreditas? Levas um tiro de canhão!»


 


O «divórcio de veludo» da Eslováquia com a Chécia foi no dia 1 de Janeiro de 1993 e Alexander Dubcek não assistiu por pouco a essa separação pois faleceu em 7 de Novembro de 1992 num «desastre de automóvel» de que o motorista saiu ileso. Curiosamente, esse motorista era membro da antiga polícia secreta checoslovaca sendo Dubcek (então Presidente do Parlamento da União) o grande concorrente de quem acabou por ser Chefe de Estado. As coisas que se dizem...


 


As quatro ligações diárias por ferry-boat entre Bratislava e Viena (escassos 60 kms por estrada e menos que isso pelo Danúbio) são por certo a sublimação das saudades eslovacas relativamente ao Ocidente e são muito frequentadas.


 


Curiosamente, a liberdade é por aqui festejada sobretudo em relação ao «divórcio de veludo» enquanto a queda da Cortina de Ferro já parece fazer parte dalguma pré-história. Einstein também nisto tinha razão: tudo é relativo.


 


Zarpámos depois do jantar e atracámos cedo na manhã seguinte a Viena. Mais uma voltinha pela cidade a fazer horas para o avião e eis-nos a caminho de Lisboa depois de os austríacos se terem esquecido de nos fazerem o transfer para o aeroporto e depois de a Lufthansa ter feito overbooking no voo para Frankfurt fazendo-nos correr o risco de ficarmos em terra. Postos os bigodes em riste e tudo se resolveu.


 


Janeiro de 2014


 


 Henrique Salles da Fonseca

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