Embarcados, instalados, instruídos, éramos dois portugueses para dezasseis espanhóis, para uma americana, para um italiano e para um número infindável de franceses. Língua corrente a bordo, a do pavilhão do navio, o francês. Ao todo, 176 passageiros, tripulação maioritariamente húngara duma simpatia inexcedível mas de comunicação algo lacónica. Algumas delas esteticamente agradáveis e outras muitíssimo agradáveis. Fica de fora a sósia de Orson Wells, a «Orselina», que por vezes também dava uns ares de Hitchcock. Temendo algum atropelamento ao estilo Panzer, com esta não viria eu a dançar na passagem do ano; outros, mais crescidos, haveriam de o fazer.
Programa da viagem: Viena – Budapeste – Bratislava – Viena.
Na sala de jantar coube-nos uma mesa francófona com variantes: um casal tipicamente francês da região parisiense que só falava francês, um casal ítalo-americano residente na Cote d’Azur que tanto falava francês como inglês (para além do italiano que nunca veio à baila) e nós, o casal português, que falava tudo isso e mais outras. A Graça, minha mulher e a americana bem tentaram que o inglês fosse reconhecido à mesa mas foram vencidas pela cordialidade do casal francês. Acabaram o cruzeiro a falar francês com muita desenvoltura, o que só lhes fez bem.
Zarpámos do cais de Viena a seguir ao jantar do dia 28 de Dezembro e logo ali à frente pelas dez da noite estávamos a passar a primeira eclusa com um desnível de oito metros a que se seguiria pela madrugada outra com dezoito metros. Na primeira fui ver, na segunda deixei-me dormir. No regresso, dormi nas duas.
O nascer do dia seguinte foi já relativamente próximo de Budapeste e deu para vermos um enorme edifício na margem esquerda, localização absolutamente privilegiada, que, afinal, estava rodeado por altas cercas de arame farpado e tinha torres de vigia a espaços certos. Tão absurdo como aquilo, só a Cadeia de Ponta Delgada que se localiza na Avenida Marginal, frente à marina de recreio. Os políticos húngaros e portugueses dos Açores têm, pelos vistos, mais com que se entreter do que com a rentabilização do património imobiliário dos respectivos Estados.
As «vagas revoltas» do Danúbio e a «calmaria política húngara»
Budapeste (Buda + Peste) recebeu-nos com algum Sol e muito movimento turístico. Vim a saber que há quatro turistas por cada residente, ou seja, algo como 40 milhões de turistas por ano. Nada mau!
E porque a excursão ao estilo «Maria vai com as outras» era só mais logo, transplantaram-se todos os fluviantes (obviamente, não éramos mareantes) para «terra firma» dando início à descoberta da «terra incógnita» toda legendada mas apenas em húngaro.
Dei assim início ao período alemão da minha viagem. Como assim? Eu explico.
Língua não praticada é língua esquecida e isso sucedeu com o meu alemão, não praticado há mais de 40 anos. Mas logo que pus pé em chão austríaco comecei a ler letreiros e a lembrar-me disto e daquilo. Mas falar... só me saía o inglês. Até que comecei a formular perguntas na minha cabeça em alemão. Só que tinha medo de perguntar e não perceber as respostas que me dessem. E lá saía novamente o inglês. Até que cheguei à Hungria e é claro que não podia comunicar em húngaro, língua que nunca aprendi. Experimentados o francês e o inglês, nada; experimentado o alemão e eis que começam a responder-me com alguma dificuldade, maior do que a que eu teria para responder às minhas próprias perguntas. E vai daí, começo a desatar a língua e a perder o medo. E, minhas Senhoras e meus Senhores, eis-me quase tão afoito como Schiller ou Mahler a ponto de passar a considerar-me «em casa» cada vez que conseguia comunicar em alemão com alguém.
E sempre em crescendo, quando alguns dias depois chegámos a Brastilava, repetindo-se as minhas obstruções desta vez em eslovaco, até brinquei com um jovem cão «Grand Danois» preto cuja dona também só me conseguia dizer qualquer coisinha em alemão.
Conclusão: o cérebro é um órgão sobre que se sabe ainda muito pouco.
Amanhã volto a Budapeste, capital desse país de gente corajosa que vive rodeada por quem a não entende e lhe cobiça a liberdade.
Janeiro de 2014
