A bem da Nação

DANÚBIO AZUL – 2

 


 


 


Do que vive uma cidade que foi cabeça de Império e hoje não governa mais que uma pequena fracção do antigo território, que passou por dois vexames militares apenas no período de um século, viu ruir um regime político, passou por uma República, perdeu a independência e se viu ocupada durante dez anos por quatro vencedores dessa última guerra? Não, a resposta não é a de que vive do lixo em que se transformou. A resposta é: luxo!


 


Sim, Viena é sinónimo de luxo e apetece mesmo extrapolar para levitação. Parece que as pessoas vivem num reino de nostálgica fantasia da História em que tudo gravita em torno de Maria Teresa, de Francisco José e de Sissi. Quanto a Hitler, mais austríaco que qualquer um dos outros... «andando, andando, meus Senhores, temos pressa para ver tudo e cumprir horários!»


 


Convenhamos, pois, que os austríacos «deram a volta» à História explorando o que pode ser considerado positivo e apagando tanto quanto possível o resto. E as hordas invasoras são hoje de pacíficos turistas em vez das de tártaros, hunos e quejandos malfeitores. Com aspecto de residentes, não vi magrebinos nem makreshianos. Nem sequer na centena de quiosques que formam o pequeno mercado de lembranças histórico-folclóricas no terreiro fronteiro ao palácio de Schönbrunn («bonita fonte») - a lembrar-me a inexistência de qualquer semelhança com o que se poderia passar frente ao nosso palácio em Queluz – topei com imigrantes. Não há dúvida, os austríacos estão no seu país a trabalhar, não se mostram pendurados na preguiça nem se fazem substituir por forasteiros nas funções que possam considerar menos requintadas. Pelo contrário, até os vendedores de rua (seriam ambulantes se deambulassem mas, na verdade, estão nas cercanias das aglomerações de passantes junto de museus e igrejas) de bilhetes para os inúmeros concertos e demais espectáculos usam opa e tricórnio como se Haydn, Mozart ou Schubert por ali andassem. De facto, não os vi mas isso não significa que por ali não levitem.


 



Ópera


 


Casacos e chapéus de pele (mais ou menos sintética mas de evidente elegância) em profusão trouxeram-me à memória os radicais livres escandinavos que esfaqueiam qualquer raposa, vison ou astrakan que em Estocolmo ou Copenhagen saia à rua aos ombros de alguém. Mas isso não acontece na Viena que visitei. E que dizer daquela chiquíssima e bem anosa Senhora parecendo sair de um qualquer sonho por onde vagueiem barões, marquesas e príncipes que na mão leva uma sacola onde acabou de meter meia dúzia de vitualhas que mais logo almoçará? Sim, mesmo ir ali à mercearia da esquina, parece ser boa ocasião para fazer toilette. Tão chique como qualquer chique às compras no Graben, o «Chiado» lá do sítio. Não quero imaginar o que essa velha elegância possa ter pensado do meu blusão escarlate e do meu porte republicano, prosaico, à saída das instalações da Escola Espanhola de Equitação onde os cavaleiros se fardam diariamente de casaca e chapéu bicórnio como se ainda estivessem ao serviço de Carlos VI, o fundador da instituição. E sempre que a cavalo ou a pé entram no picadeiro, a primeira coisa que fazem é saudar o retrato do seu Imperador.


 



Graben


 


E tudo isto se passa numa República que, inteligentemente, não despreza a História e a explora economicamente com enorme dignidade. Sim, há muita gente que vai a Viena só para ver os cavalos lipizanos e isso é um trunfo relevante para muita gente. Basta referir que durante várias décadas os prejuízos crónicos da Ópera de Viena eram cobertos pelos lucros sustentados da Escola de Equitação. Depois de alguém ter «esticado a corda» pondo a Escola à beira da falência, as águas foram separadas e os cavalos brancos deixaram de temer pela ração de cada dia.


 



 


Lotação esgotada para vários dias nas tribunas do picadeiro de Inverno, arranjaria bilhetes para um prazo que em muito excederia a minha permanência na Áustria. E o que eu pretendia ver seria apenas o treino diário matinal e não o espectáculo formal. Sei perfeitamente o que iria ver mas nós, homens de cavalos, nunca nos cansamos desta arte efémera que nasceu há tantos séculos e que, contudo, é sempre nova em cada cavalo e por cada cavaleiro.


 


E porquê «espanhola»? Porque os Habsburgo reinaram em Espanha e na Áustria e porque os cavalos ibéricos foram a génese dos actuais lipizanos. Mas isto são outras cavalgadas...


 


Passemos ao barco do cruzeiro danubiano em


http://www.croisieuroperivercruises.com/ships/ms-vivaldi-2014


 


 


Janeiro de 2014


 


 Henrique Salles da Fonseca

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