A bem da Nação

DANÚBIO AZUL – 1

 


 


Johann Strauss (filho) celebrizou o azul do Danúbio mas a minha tia Maria Adelaide tinha-me dito que ele mais se parecia com o Caneiro de Alcântara no pino do Verão. E lá fui eu a acreditar mais na minha tia do que no romantismo dos três tempos da valsa.


 


Estava verde! Fazia jus à primeira imagem que tive da Áustria: uma estação de tratamento de águas residuais bem próxima da rota de aproximação dos aviões à pista principal do aeroporto de Viena. Poderá uma ETAR ser pouco romântica mas convenhamos que a limpeza é «coisa» muito bonita. Tanto o Strauss como a minha tia estariam, portanto, hoje fora da razão mas como nenhum dos dois anda por aí para os informarmos da verdade, deixemos a coisa assim: «se lá no assento etéreo a que subiram memória desta vida se consente», fiquem sabendo que o Danúbio é verde, da cor do Tejo aqui junto da foz. Mas o Tejo é lavado duas vezes por dia pelas higiénicas Tágides que vão ali ao Bugio buscar água limpa e a levam até acima de Alcochete enquanto as Dúbias (serão essas as Ninfas lá do sítio?) não devem sequer conseguir encontrar água limpa lá pelas margens do Mar Negro. Nem que se adentrem pelo Bósforo onde só poderão encontrar «coisas» turcas. Ou seja, um grande cumprimento aos higienistas da bacia hidrográfica do Danúbio pelo notável esforço de limpeza desenvolvido e um puxãozito de orelhas aos que de Toledo a Carcavelos em ambas as margens do Tejo se entretêm com outros temas.


 


Mas convenhamos que mais vale algum excesso de matéria orgânica em suspensão no nosso rio do que sermos metidos em duas guerras (ainda por cima perdidas) e vivermos sob a pata dos comunistas durante um ror de anos.


 


Nós, porquinhos mas felizes; eles, limpinhos mas quase sempre na mó de baixo até há bem pouco tempo. Há quanto? Em Bratislava assistimos às comemorações dos 21 anos da independência.


 



 


Ao visitar a catedral de Bratislava, deparei-me com a celebração da Missa de Ano Novo (coincidente com a Festa Nacional), concelebrada pelo Arcebispo, por mais três ou quatro Bispos e por um número de Padres a que perdi a conta. Órgão, conjunto instrumental com algum volume, coro também volumoso e solistas – recordo um baixo, um tenor e um soprano – que deram à celebração uma solenidade formidável. Só não consegui identificar a peça musical interpretada pelo que presumi tratar-se da obra de algum compositor eslovaco incluído na minha vasta ignorância. Quem identifiquei claramente foi o operador de câmara de TV que, em transmissão directa, me pisou duas vezes. E em transmissão directa me calei pois, para além do mais, estávamos na Casa do Senhor. Na primeira fila, junto à coxia central, estava um Fulano com uma vestimenta preta e um grande colar doirado com o que me pareceu uma chave pendurada. Tomei-o pelo Burgomestre mas logo depois dele estavam mais dois importantões que só poderiam ser o Presidente da República e o Primeiro Ministro. Digo eu! Seriam? Não faço ideia mais concreta do que a dúvida que aqui deixo mas a solenidade não me deixou grande margem para encontrar alternativas. Sei que, anónimo turista acabado de desembarcar dum cruzeiro fluvial, me acerquei deles todos sem que ninguém verificasse o que eu levava debaixo do meu blusão escarlate. Depois admirem-se que nem todos os escarlates sejam portugueses pacíficos...


 


Finalmente, por agora, em tentativa de síntese, deixo uma palavra para cada capital, das que visitei: Viena, levitação; Budapeste, coragem; Bratislava, Tavira.


 


Até logo!


 


Janeiro de 2014


 


 Henrique Salles da Fonseca

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