[Um dos ramos] das paixões sociais é aquele que diz respeito à sociedade em geral.
Quanto a isto, observo que a sociedade, meramente enquanto tal, sem quaisquer relevos particulares, não nos dá qualquer prazer positivo quando a gozamos; mas a solidão completa e absoluta, isto é, a exclusão total e perpétua de toda a sociedade, é uma das maiores dores positivas que somos capazes de conceber.
Logo, quando comparamos o prazer da sociedade em geral com a dor da solidão absoluta, a dor é a ideia predominante. Mas o prazer de qualquer gozo social particular ultrapassa bastante a perturbação causada pela falta desse gozo particular, de modo que as sensações mais poderosas que dizem respeito aos hábitos da sociedade particular são sensações de prazer.
A boa companhia, as conversas animadas e os laços de amizade enchem a mente de grande prazer; uma solidão temporária, por outro lado, é em si mesma agradável.
Isto talvez prove que somos criaturas concebidas tanto para a contemplação como para a acção, uma vez que tanto a solidão como a sociedade têm os seus prazeres.
Tal como a partir da observação anterior podemos discernir que uma vida inteira de solidão é contrária aos propósitos do nosso ser, já que nem a própria morte nos causa terror maior.

Edmund Burke
In «Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo», ed. Edições 70, Setembro de 2013, pág. 62