A BARATINHA, O GATO DE DENG XIAOPING E A MALDIÇÃO DE ROSA LUXEMBOURG
- Vai por aí uma escandaleira só porque uma ex-ministra, mal se livrou do cargo e do encargo, tratou de fazer pela vida. Como o vencimento de deputado lhe parecia parco, vá de aceitar o primeiro emprego que lhe apareceu. Para ir adiantando, está visto – que outros hão-de vir.
- Não será, certamente, nem a primeira (quantos, antes dela, não fizeram o mesmo), nem a última (porque, na verdade, a vida está - e continuará a estar - pelas horas da morte).
- Conflito de interesses descarado!, barafustam. Se fôr, também não será, nem o primeiro, nem o último caso – muito menos um caso raro. Ao nosso Parlamento não têm faltado candidatos que tecem delicadamente as teias que colam interesses particulares ao interesse público.
- Pessoalmente, não vejo que mal daí possa advir. Sempre que se saiba de ciência certa quem defende o quê. Dito de outro modo. Posto que um deputado terá sempre interesses legítimos a defender (desde logo, o programa pelo qual tenha sido eleito - afinal, é para isso que marca o ponto), tudo se resumirá à verdade, à actualidade e à publicidade da sua declaração de interesses.
- Agora, o que me parece descabido é serem os seus pares a vigiar para que essa declaração de interesses continue, a todo o momento, verdadeira, actual e do conhecimento público. Caber-lhes-á, sim, pronunciarem-se sobre a licitude dos interesses declarados. Violá-la, porém, configura um ilícito que deve pertencer aos tribunais apreciar. Sempre.
- O que está mal, entre nós, é precisamente a despenalização dos conflitos de interesses em que deputados, à revelia das suas declarações de interesses, incorram. Como se a função de soberania que lhes está confiada não devesse ser mais protegida do que todas as outras.
- Mas voltando ao caso da tal ex-ministra.
- A empresa que a convidou dedica-se à meritória tarefa de libertar os Bancos (e outras Instituições Financeiras) do malparado que o destino (é sempre o destino, porque, nestas matérias, a responsabilidade morre invariavelmente solteira) lhes impôs. Para uns, será uma espécie de abutre. Para outros, um purgante assaz amargo. A sua utilidade para a saúde dos sistemas financeiros é, porém, inegável – e não vejo eu como possa colher frutos ínvios da contratação de um deputado.
- Agora, tenham paciência! Eu esperaria que um ex-ministro nosso – mesmo com o fraquinho curriculum da dita Senhora, mesmo com aquela confusão de swaptions em que ela se envolveu (e envolveu a REFER) - tivesse, no mercado internacional, um rating, não diria AAA, mas, no mínimo BBB (o que é dizer: investment grade).
- Tanto quanto sei, o grupo empresarial para onde vai não pertence à nata da finança internacional e as condições que ofereceu dir-se-ia mais do tipo speculative grade. Se não estiverem previstas nas entrelinhas outras mordomias, temo que a ex-ministra tenha de se alojar num hostel de Lancaster Gate de cada vez que o dever a chamar a Londres. Não deve dar para mais.
- Na ânsia de opinar em inglês e de ostentar um cartão de Vice-President de uma empresa britânica, a pobre Senhora não soube fazer-se valer – é o que é. E isso não lhe perdoo, Que diabo! Estamos assim tão descredibilizados internacionalmente que os nossos ex-ministros não conseguem arranjar melhor?
- Pode parecer estranho, mas este trivia tem, para mim, tudo a ver com a temida e diabolizada “espanholização” da Banca portuguesa.
- Na verdade, preocupa-me mais o facto de a regulação e a supervisão do nosso sistema bancário ter sido entregue sem pestanejar a uma entidade supra-nacional (o BCE) do que ter os Bancos que por cá operam controlados por grupos empresariais estrangeiros. Porque é o BCE que dita que ratos caçar, quando e como. E nós nem sequer temos voz para escolher a côr dos gatos.
- Mas preocupa-me acima de tudo que só os Bancos espanhóis demonstrem um módico de interesse pela economia portuguesa. Isto, sim, é para mim acabrunhante.
- Indo mais fundo, vem-me à ideia Rosa Luxembourg: “Pior do que sermos explorados por capitalistas, é não haver capitalistas que queiram explorar-nos”.
ABRIL de 2016
