A bem da Nação

CURTINHAS CXXI

CONTA-ME COMO VAI SER... (II)


 



 Dark Liffey banks


 


v        O quadro que ficou esboçado no escrito anterior deixa entrever uma realidade incómoda que pode ser descrita de uma infinidade de maneiras. Eis duas, só para exemplificar:


-          Que as Dívidas Soberanas dos países da Zona Euro aos Bancos do seu núcleo duro são para pagar até ao último cêntimo (a Grécia foi a excepção, mas só depois de os Bancos alemães estarem em condições de aguentar o embate do perdão da dívida sem tremerem);


-          Que o “facilitismo” dos países gastadores é um vício a erradicar com doses reforçadas de austeridade. Mas o “facilitismo” dos Bancos (desde logo, os tais do núcleo duro), esse, é virtuoso - e, por isso, eles devem ser poupados aos dissabores do crédito malparado.


 


v        Apetece dizer: às urtigas com o quadro. A Islândia é que é.


 


v        Acontece que:


-          A Islândia não fazia parte da Zona Euro (nós, sim), pelo que podia mexer na taxa de câmbio a seu bel’ prazer (nós, não);


-          Eram poucos, os islandeses, para mais com uma estrutura demográfica relativamente equilibrada (a nossa estava já de pernas para o ar, apesar de também não sermos tantos assim);


-          Havia por lá energia geo-térmica abundante, que era exportada sob a forma de alumínio (nós, sempre na dependência das importações de energia);


-          Além de uma Balança Alimentar excedentária (nós, a ter de importar muito do que comiamos).


 


v        Em comum, apenas, Bancos com a manía das grandezas – e era tudo. Realidades estruturalmente diferentes, como bem se vê.


 


v        E, então, a Irlanda?


 


v        Ah, a Irlanda! O “tigre celta”! Ainda não há 10 anos, o “case study” que, em momentos de maior exaltação, os nossos Governos se propunham imitar. Mas, para lá da localização na periferia da Europa e de fazermos parte da Zona Euro, seriamos tão semelhantes assim?


 


v        Vejamos:


-          Eles falavam a língua franca mundial desde o berço (com gaélico à mistura, para dar aquele toque de exotismo). Nós, por cá, era mais o “camone” com pronúncia de gigolot algarvio - e sempre nos sentiamos pouco à vontade na estranja.


-          Eles, em geral, possuiam uma formação técnico-profissional prolongada e de qualidade reconhecida. Nós, por cá, andávamos às voltas com as Novas Oportunidades, à falta de melhor.


-          Eles viviam paredes meias com uma economia (a do Reino Unido) desenvolvida, aberta ao comércio internacional e amiga do empresário. Nós, por cá, tinhamos vista para uma economia (a espanhola) bastante semelhante à nossa e que não perdera ainda os tiques de proteger o seu mercado interno.


-          Eles podiam contar com os primos dos EUA para lhes trazerem inovação, tecnologias, negócios e capitais. Nós, por cá, tinhamos a parentela espalhada por meio mundo, amável ao ponto de nos enviar pontualmente umas “maçarocas gordas” - mas nada de empresas, nada de investimentos que nos integrassem na economia global.


-          Eles, cultores da common law, votavam leis baseadas em princípios claros que qualquer um entendia - e, para as fazer cumprir, lá estavam tribunais a decidir com equidade, com coerência e de forma expedita. As nossas leis, essas, eram mantas de retalhos cuidadosamente costuradas para que os advogados pudessem argumentar ad nauseam - com os tribunais, divertidos, a assistir.


-          Eles, pragmáticos, ofereciam um regime fiscal simples, leve, que criava empregos. Por cá, a fiscalidade era pesadona, volúvel, cheia de caprichos e requebros, em que poucos entenderiam o “porquê - mas em que o “para quê” era mais que óbvio: pagar uma burocracia asfixiante e financiar transferências sociais que fomentassem a subsídio-dependência em vez do emprego.


-          Comparar os “custos de contexto” de lá com os de cá seria, então, um insuportável exercício de masoquismo. E mais penoso ainda seria comparar, ano a ano, o IDE que afluia lá, com o que cá chegava.


-          Eles exportavam, por ano, mais de 100% do PIB - o que reflectia o peso da domiciliação de negócios por razões fiscais, mas que sempre ia criando empregos desligados da procura interna. Nós, por cá, com o aplauso dos sucessivos Governos, dos Bancos (e, pour cause, do BdP) e das “utilities” iamos engordando a procura interna com doses massivas de dívida - e remetiamos alegremente as actividades exportadoras para o esconso de uma bem meditada governação.


-          Ah! Mas os Bancos deles - pimba! E os nossos - também não pimba? Com uma enorme diferença. Eles, forçados pela realidade, tudo fizeram para corrigir de imediato a desgraça que lhes batia à porta: capitalizaram, primeiro, e sanearam, depois. Nós, por cá, persistiamos na ilusão de que os nossos Bancos eram sólidos - e assim continuariamos até ao momento em que a realidade nos atropelasse.


 


v        Em boa verdade, eu não vejo grandes semelhanças. E o Leitor? Vê-as?


 


v        Os € 60 mil Milhões que a troika emprestou à Irlanda para que saneasse o seu sistema bancário, deixaram o seguinte rasto:


-          A população empregada reduziu-se, entre Janeiro de 2008 e Dezembro de 2013, 12.8%.


-          A taxa de desemprego passou de 5% (107,000 pessoas) em Janeiro de 2008; para 14.7% (296,300 pessoas) em Dezembro de 2013 - com um máximo de 15.2%, em meados de 2012.


-          A emigração líquida (média 2008-2013) atingiu 33,000/ano (em 4.6 milhões de habitantes).


-          O PIB contraiu, entre 2008 e 2013, ao ritmo de 1.2%/ano.


-          Troika out, e o deficit orçamental em 2013 ainda era de -7.3%/PIB.


-          Durante o programa da troika ,o peso da Dívida Pública quase duplicou, atingindo 121%/PIB (Dezembro de 2013) - e o endividamento das Famílias estava nos 200%/PIB


-          Em pouco mais de 3 anos, os imóveis dados em garantia aos Bancos desvalorizaram 56%.


-          Do total de empréstimos hipotecários, no final de 2013, 17% estavam em incumprimento.


-          Com uma sinistralidade de crédito na ordem dos 11.2% (Dezembro de 2013), a recapitalização dos Bancos irlandeses estava ainda longe de ser um capítulo encerrado.


 


v        Será este o retrato de um caso de sucesso? Poderão os irlandeses (e os seus credores) dormir finalmente despreocupados?


 


v        Os que muito se congratularam com a “saída limpa” da Irlanda querem convencer-nos - e convencerem-se - com dois argumentos:


(i) a dinâmica das exportações;


(ii) a subida da cotação (queda nas yields) da Dívida Pública da Irlanda nos mercados financeiros internacionais.


 


v        Quanto à capacidade exportadora da economia irlandesa, basta atentar que, na Filial irlandesa da Google, cada empregado produz cerca de € 4.8 Milhões/ano.


 


v        Como é bem de ver, este desempenho extraordinário tem mais a ver com deslocalização de facturações (a célebre “sandwich holandesa” sobre a qual eu um dia destes escreverei) e o aproveitamento de um regime fiscal muito favorável, do que com a economia real, a criação de empregos e a contribuição das exportações para o equilíbrio orçamental.


 


v        A razão da queda nas yields fica para o próxima “Curtinha”. Até lá, estou curioso de saber como se diz em gaélico See you soon, troika. «Féach leat go luath, troika» (Google dixit).


 


(cont.) 


 


MAIO de 2014


 A. Palhinha Machado


 

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