A bem da Nação

CURTINHAS CVII

 


Jogos de sombras - II


 


v      Muitas mais sombras há que são igualmente enganadoras. Eis outra.


 


v      “A Alemanha tem uma estratégia para o euro”. Não! A Alemanha tem uma estratégia para Alemanha. Uma estratégia de longo prazo – a que teve de que acoplar à pressa uma táctica para o imediato, por causa da crise financeira internacional e dos erros que esta crise veio pôr a descoberto no euro.


 


v      Primeiro, a táctica. A crise trouxe à luz crua do dia o estado deplorável da Banca alemã, que imitava o que os grandes Bancos verdadeiramente globais iam fazendo por esse mundo fora, mas sem os copiar em matéria de governance e gestão do risco. Só isso explica a enorme exposição dos Bancos alemães, tanto a Leste, como a Sul (e o estado actual dos seus esquemas de seguro de crédito à exportação).


 


v      Era necessário tempo para:


(i) pôr no são o sistema bancário alemão, encerrando uns Bancos, fundindo outros, recapitalizando aqueles com maior projecção internacional;


(ii) e, de caminho, procurar maneiras de os seus grandes devedores irem dando a imagem de que alguma vez pagariam (para não chamar atenções, nem suscitar cuscovilhices antipáticas). Desde o colapso da Grécia até há bem pouco, a história da Zona Euro seguiu este guião, linha por linha.


 


v      Hélàs! A táctica tinha (e tem) um ponto vulnerável: vá-se lá saber porquê, os génios que conceberam o euro não colocaram uma Câmara de Compensação junto do BCE. A compensação entre os Bancos Centrais que formam o esqueleto da Zona Euro (o SEBC/Sistema Europeu de Bancos Centrais) é feita bilateralmente, sem regras para a liquidação automática dos saldos (contrariamente ao que acontece em qualquer esquema de clearing concebido com pés e cabeça). E os saldos têm-se acumulado.


 


v      Resultado: o Banco Central alemão (o Deutsch Bundesbank) é, neste momento, credor do SEBC em quase € 900 biliões (cerca de 9% do PIB da Zona Euro, 1/3 do PIB alemão). Ninguém sabe como é que este problema poderá ser resolvido – e todos, entretanto, vão assobiando para o ar.


 


v      A estratégia, essa, é de maior fôlego. Para melhor compreendê-la há que referir uma característica comum a todas as uniões monetárias: induzir recessões competitivas. Quem as integrar, uma vez despojado do instrumento cambial, só pode competir com os seus parceiros através de custos (do trabalho, financeiros, de contexto) cada vez mais baixos, para não ver partir as suas empresas.


 


v      A UEM não é excepção, tanto mais que, no seu interior, a movimentação de pessoas experimenta grandes atritos – e os regimes fiscais estão muito longe da sonhada harmonização.


 


v      Em 2001, o euro reuniu de golpe, sob uma mesma denominação e num único mercado, toda a liquidez que, até então, andava repartida pelas moedas nacionais que ele vinha substituir.


 


v      Essa abundância de liquidez, acompanhada da livre movimentação de capitais, ocultou, durante os três primeiros anos, a dura realidade da recessão competitiva. Aproveitar fosse como fosse o dinheiro abundante e barato era, por esses dias, a palavra de ordem em toda a Zona Euro – e a Alemanha não foi excepção.


 


v      Mas foi a Alemanha, justamente, o primeiro Estado Membro a cair na realidade (deficit orçamental acima de 3% do PIB, quebra acentuada no tradicional superavit da BTC).


 


v      Em 2004, o Governo Schroeder percebeu que, para não perder competitividade externa (sobretudo, nas regiões do Globo com maior potencial, como os BRICs e os EUA – sim, os EUA) tinha de encontrar uma solução que satisfizesse, simultaneamente, um euro forte e estável (para o equilíbrio interno) e preços competitivos na exportação de bens e serviços (para o equilíbrio externo).


 


v      Sem perder tempo, deu início a uma estratégia de recessão competitiva centrada na redução dos CUT/Custos Unitários do Trabalho (recorda-se, Leitor, da agitação social na Alemanha, em 2004 e 2005?) – a que o BCE veio dar uma ajudinha na vertente “custo do capital”. E fê-lo com determinação e rigor prussianos. De tal modo que, recentemente, uma associação empresarial holandesa ameaçõu levar o caso a Strasbourg (sede do TJUE), alegando concorrência desleal.


 


v      Estimular a procura interna, só abandonando uma estratégia que tanto custou a montar, mas que tão bons frutos tem dado. Compreende-se, pois, que a Alemanha seja um leader relutante em matéria de estímulos directos à procura interna para relançar o crescimento económico.


 


v      Para a Alemanha só fazem sentido estímulos orientados, simultaneamente, para ganhar quota no comércio internacional e para manter o euro forte e estável. E a recessão competitiva é, à primeira vista, a solução óbvia (assim o “povo povão” aguente).


 


v      Na sua aparente robustez, esta estratégia tem nos restantes Membros da Zona Euro a sua maior fragilidade. E se eles enveredarem também por estratégias de recessão competitiva, levando-as mais longe do que a própria Alemanha? E se eles não alinharem com o passo da Alemanha em matéria de redução dos CUT? E se os mercados financeiros discriminarem Estados Membros, impondo a uns custos de capital muito superiores aos de outros?


 


v      O primeiro problema não preocupa sobremaneira a Alemanha - por enquanto. A eficiência da sua indústria não tem paralelo na UE. E o acesso a energia barata (vinda de Leste), para mais paga em euros (a moeda própria), coloca-a a par dos EUA – e acima de todas as outras economias.


 


v      Os outros dois problemas conduzem, cedo ou tarde, a cenários de desagregação da Zona Euro, com um membro após outro a ter de sair do euro para tentar recuperar os equilíbrios “macro” (tanto interno, como externo) – partindo de rendimentos reais substancialmente mais baixos.


 


v      E o que significaria, para a Alemanha, regressar ao DMark?


 


v      Significaria:



  • Uma acentuada valorização cambial do DMark relativamente às moedas nacionais das economias suas principais concorrentes no comércio internacional;

  • A imperiosa necessidade de compensar, compensar sempre, o mais pequeno surto de revalorização cambial do DMark com medidas mais duras de redução dos CUT;

  • Ter de proteger da concorrência internacional as actividades domésticas dirigidas à procura interna (possivelmente, com restrições à livre circulação de mercadorias e serviços);

  • Empreender sistematicamente medidas para esterilizar o afluxo de capitais aos Bancos alemães e ao DMark (se não mesmo restringir, por via administrativa ou fiscal, a importação de capitais);

  • E - talvez o pior - ter de voltar a pagar em USD o crude, o gás natural e várias matérias primas que não pode deixar de importar.


v    Significaria, em última análise, mergulhar num mar de incertezas:


(i) do custo da energia aos custos das matérias primas industriais;


(ii) do stock da liquidez em circulação (e do nível da inflação gerada internamente) à paz social.


 


v    Até ao momento, a Zona Euro dá-lhe:



  • A certeza de um mercado alargado, livre de risco cambial;

  • Um elevado grau de certeza na factura da energia e de muitas outras matérias primas;

  • A possibilidade de ter como moeda nacional uma moeda de reserva internacional (com os ganhos de senhoriagem que tal permite aos seus Bancos);

  • O contrapeso de economias cujos desequilíbrios impedem que a taxa cambial do euro dispare por aí acima;

  • E, consequentemente, uma estratégia de recessão competitiva (relativamente ao resto do mundo) menos agreste.


v    Mas, para que o mundo seja assim, à medida dos interesses alemães:


(i) nenhum Estado membro pode lançar a toalha ao chão para recuperar a sua própria moeda nacional;


(ii) todos os Estados membros têm de acertar o passo (nem mais rápido, nem mais lento) pelo ritmo de recessão (principalmente, ao nível dos CUT) que a Alemanha for impondo, segundo as suas próprias conveniências.


 


v    É justamente isto que Frau Merkel e Herr Schäuble não se cansam de nos segredar ao ouvido, de há três anos a esta parte.


 


(FIM)


 A. Palhinha Machado


MAIO de 2013

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