A bem da Nação

CORRESPONDÊNCIA COM A CASA BRANCA – I

 


 


 


O que se tem passado ultimamente nas Nações Unidas e a posição que vários dos nossos aliados têm tomado, especialmente os Estados Unidos, leva-me a dar publicidade a duas cartas que no Verão de 1963, enderecei ao falecido Presidente Kennedy.


 


Devo antecipadamente esclarecer que de forma alguma me movem sentimentos antiamericanos e, pelo contrário, tenho pelos Estados Unidos uma grande admiração, particularmente no que a variados aspectos se refere e possuo naquele país um elevado número de amigos. Admiro, por exemplo, a extraordinária eficiência que nos Estados Unidos encontramos quase por toda a parte mas que, infelizmente, não abunda no que à sua política internacional diz respeito. E é curioso notar que tal facto é já hoje notório para muitos americanos cultos, em especial aqueles que viajaram extensivamente pela Europa ou neste continente fizeram estágios prolongados.


 


Encontrava-me no Verão de 1963 a trabalhar nos Estados Unidos e pareceu-me que não deixaria de ser oportuno enviar à Casa Branca uma carta em que apontasse o que me pareciam discrepâncias em relação à atitude dos Estados Unidos para com Portugal. Começara por essa altura a esbater-se o grande encarniçamento que nesse país se verificara contra Portugal a partir de 1961, quando, em consequência duma enorme e bem organizada campanha, em que a verdade era deliberadamente suprimida, a ideia duma Angola em plena revolta, cruelmente esmagada pelo poderio militar de Portugal, era apresentada ao cidadão americano – como ainda hoje é, por exemplo nos países escandinavos – como se fosse um facto evidentíssimo e indiscutível. Mas esse atenuamento na virulência dos ataques estava longe de ser significativo. Eles continuaram mesmo ainda muito activos por mais um ano ou dois para, após um período de relativa calma – a evidência sempre pode alguma coisa! … - parecer voltar a notar-se agora certo recrudescimento.


 


É provável que em 1961 dominassem as forças económicas a quem convinha a saída de Portugal dos seus territórios de África. Essas forças eram suficientemente poderosas para montar a campanha (o pobre cidadão americano médio está convencido de que a sua Imprensa, TV, etc. não estão sujeitas a qualquer Censura…) e mesmo influenciar o Governo. Os portugueses não podem esquecer as palavras duras e injustas então proferidas nas Nações Unidas por Adlai Stevenson. O mesmo Adlai Stevenson que, meses antes, numa cerimónia oficial na Samoa Americana declarara que os naturais dessa terra (recentemente adquirida) eram cidadãos americanos e se orgulhavam de o ser, mas não compreendia que habitantes de territórios que já eram portugueses bem antes de Nova York ser parte dos Estados Unidos se considerassem cidadãos portugueses e se orgulhassem de o ser. O mesmo Adlai Stevenson que num artigo publicado em «The Sunday Bulletin», de Filadélfia, em 27 de Janeiro de 1963, procurando justificar a intervenção dos capacetes azuis das Nações Unidas no Congo, declarava que não houvera qualquer intervenção mas que as Nações Unidas apenas tinham enviado tropas para o Congo a pedido do Governo desse país, para o ajudar a dominar uma rebelião – o que, se as Nações Unidas algumas vezes usassem de uniformidade de critérios, as obrigaria, por exemplo, a auxiliar a República da África do Sul no caso de este país alguma vez ter que dominar uma rebelião e decidir apelar para o areópago de Nova York.


 


 


A carta que enderecei ao Presidente Kennedy era do seguinte teor:


 


Filadélfia, 30 de Julho de 1963


 


A Sua Excelência


O Presidente dos Estados Unidos


Casa Branca


Washington, D. C.


 


Ex.mo Senhor Presidente:


 


Sou um biologista português, actualmente a trabalhar neste país, que admiro enormemente em muitos pontos.


 


Tomo a liberdade de enviar a V. Ex.ª, com esta carta, uma página de «The Philadelphia Enquirer» de 25 de Julho, onde encontrei um dos raros relatos escritos directamente de uma das Províncias Ultramarinas Portuguesas. Como de costume, os relatos directos por testemunhas oculares descrevem exactamente o contrário do que encontramos na Imprensa dos Estados Unidos acerca de Portugal e em particular das Províncias Ultramarinas Portuguesas originado de outras fontes.


 


Obviamente, não peço que V. Ex.ª acredite o que o Governo Português diz ou o que escrevem jornalistas que visitam esses locais. Mas muito sinceramente lhe peço que envie um dos seus colaboradores numa viagem através das diferentes parcelas de Portugal para que observe e lhe relate qual é a verdadeira situação.


 


Não consigo encontrar explicação para a política seguida pelos Estados Unidos em relação a Portugal, particularmente nas nações Unidas, salvo uma falta de informação enorme, fantástica, colossal – ou uma superabundância de informação errada. Não posso compreender como os Estados Unidos – se devidamente informados – podem actuar e alinhar com o inimigo, contra os seus próprios interesses e contra a justiça. Como pode este país concordar com aqueles que exigem a ajuda das Nações Unidas para alcançarem os seus objectivos com a ameaça de que, em caso contrário provocarão eles a guerra – ou seja, uma negação completa da Carta que subscreveram.


 


Tenho a certeza de que se V. Ex.ª e o povo dos Estados Unidos souberem que a situação nas Províncias Ultramarinas Portuguesas é a que os Portugueses dizem ser, este país imediatamente mudará a desgraçada política que actualmente segue neste importante sector da política internacional.


 


Por essa razão eu repito: a não ser que V. Ex.ª deseje lá ir pessoalmente (o que, certamente seria muito melhor e seria muito bem-vindo) por favor envie alguém independente e em quem possa confiar para que lhe conte a verdade. V. Ex.ª de certo conhece a diferença entre um país que põe um muro em volta do seu território e um que considera bem-vinda a visita de todos os homens de boa vontade.


 


Muito respeitosamente


 


as) Miguel Mota


 


Em próximo artigo relatarei o que determinou o envio de segunda carta.


 


  MIGUEL MOTA


 


In: «Jornal do Comércio», 16 de Janeiro de 1968


 


 


 

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