Personagens:
- Rei D. Manuel II
- Presidente Manuel Teixeira Gomes
- Rainha D. Maria Pia
Cenário – passeio sobranceiro à «Praia dos Pescadores» na Ericeira
* * *
MTG – Boa tarde, Majestade! Cá estamos nós prontos para espantar os nossos colegas, os fantasmas que nos atazanam.
R – Como as outras, a conversa de hoje também fica exclusivamente entre nós, nem às paredes a confessaremos porque as paredes têm ouvidos e os ouvidos têm pernas.
MTG – Às ordens de um Rei sereno até um Presidente sereno obedece. – ambos riram - Mas é claro que manterei segredo do que Vossa Majestade disser. Ouso pedir reciprocidade de tratamento.
R – Os pedidos de um Presidente sereno são facilmente satisfeitos por um Rei sereno. Tratemos, pois, de afastar os nossos fantasmas…
MTG – Quem começa?
R – Posso começar eu. E, para já, não vou afastar os meus fantasmas mais antigos. Fico-me só pelo que aconteceu em 5 e 6 de Outubro de 1910: a viagem de Lisboa a Mafra e o embarque aqui na Ericeira. Como se imagina, nas Necessidades, toda a gente estava de cabeça perdida, desde os criados que se viam sem emprego até às Rainhas mas a carruagem apareceu a horas de viajarmos para Mafra, quando lá chegámos tudo estava preparado para nos receber durante a noite, na manhã seguinte viemos até aqui sem correrias de quem foge, tínhamos um bote à nossa espera e o yacht «Amélia» ancorado ao largo. Até mesmo o percurso de Lisboa a Mafra pareceu um passeio de Domingo. A República tinha sido proclamada em Loures no dia 4, não devíamos passar por lá; a viagem por Cheleiros seria impossível para os cavalos e, contudo, sem que eu desse uma única ordem, saímos calmamente das Necessidades, rumámos a Queluz, tomámos o caminho de Pêro Pinheiro e Negrais, Malveira e Mafra, tudo isto sem subidas nem descidas difíceis. Estava tudo pensado por alguém, tudo aconteceu sem atropelos. Este é o meu primeiro enigma. O segundo, o ambiente em Mafra onde parecia que nada se estava a passar no resto do país e, finalmente, o que aconteceu à chegada ao yacht quando, esperando nós que rumaríamos ao Porto, o Comandante me declarou – sem me pedir licença nem qualquer hesitação – que rumaríamos a Gibraltar e não a qualquer outro destino. Pura e simplesmente, estávamos a ser raptados e o rapto começara no preciso momento em que subíramos para a carruagem no pátio das Necessidades. E quando chegámos a Gibraltar, já estava tudo arranjado para a minha avó seguir para Génova e não nos acompanhar até ao nosso destino final que, entretanto, já sabíamos que seria Londres. Tudo excessivamente sincronizado para se poder assemelhar a uma fuga.
MTG – Eu não lhe chamaria rapto mas sim uma acção que visava pôr a Família Real portuguesa a recato, em condições que garantissem a sua própria segurança física.
R – E a minha avó?
MTG – Vim a saber mais tarde que Londres não queria que a Casa de Sabóia se imiscuísse nos assuntos do Império Britânico.
R – E o que é que Portugal tem a ver com o Império Britânico?
MTG – Formalmente, nada. Mas a antiga Aliança dá aos ingleses um sentido de obrigação de protecção de Portugal que não sentem com outros países.
R – A Aliança ou os vinhos do Porto e da Madeira, as possessões ultramarinas e mais não sei quê?
MTG – Pois… E quando Vossas Majestades chegaram a Londres e se instalaram no mesmo palácio em que a Senhora D. Amélia nascera (estava então a Família Real francesa também em exílio), houve que procurar um Embaixador português que «falasse» bem inglês…
R – A bon entendeur! Quer isso dizer que os ingleses já tinham ligações com os republicanos?
MTG – Manda a prudência ao cavaleiro que mantenha um pé em cada estribo.
R – Agora sou eu que digo «Pois…». Realmente, com a sua chegada a Londres, sentimos uma certa segurança. Mas o fim da sua comissão foi um tanto repentinoa.
TG – O Presidente Sidónio Paes era da linha dura. Recebi ordem de regresso imediato a Portugal. Despedi-me do Rei Jorge V e da Rainha Alexandra que me receberam à pressa e, por amizade, fora das normas do protocolo. Despedi-me do Primeiro Ministro e segui no primeiro barco que arranjei. Passei por Lisboa para tratar de assuntos administrativos e recolhi-me a Vila Nova de Portimão e às minhas adoradas amêndoas, as minhas filhas, entretanto adolescentes. E assim fiquei em recato enquanto o Capitão Agostinho Lourenço punha a Marinha Grande na ordem sidonista. Com o fim do Consulado Sidonista, Lourenço desaparece da cena portuguesa durante 15 anos para só reaparecer em 1933 para instalar a PVDE. Ele e eu fomos como os alcartruzes mas em 1925 fartei-me de tudo, desmoralizei e exilei-me. Deixei os bens às minhas filhas e fui para longe da confusão que só com mão de ferro assentaria. E como não sou dos da «hard glove», auto-exilei-me na Argélia francesa onde encontrei estalajadeiras amáveis e deixei-me por lá ficar à espera que o Capitão Agostinho Lourenço fizesse o que fez e que não era do meu estilo «soft glove».
R – E os «Serviços» abandonaram-no?
MTG – Bem, Majestade, digamos que as minhas modestas despesas foram sempre atempadamente liquidadas. Mas o meu funeral em Bougie foi pago pelo nosso Governo.
R – E com esta conversa, o Senhor afugenta algum fantasma?
MTG – Sim, Majestade. Estava muito necessitado de contar tudo a quem merecesse saber e me desse garantias de segredo absoluto. É o caso de Vossa Majestade.
Foi então que, no seu passo miúdo, vinda do «Passeio Marítimo», surgiu a Rainha D. Maria Pia que, passando junto do Rei e do Presidente, lhes fez saber que – Ho sentito tutto quello che hai detto e penso che, se non è vero, è ben trovaato – e, sempre no seu passo miúdo, seguiu até à porta da «Casa da Fernanda» onde se esfumou… Iria comer um «ouriço»? Que disparate! Quando é que já se viu um fantasma a comer?
Outubro de 2020
Henrique Salles da Fonseca