Personagens:
- Rei D. Manuel II - 1889 – 1932 (exílio em Inglaterra, 1910-1932)
- Presidente Manuel Teixeira Gomes - 1860 – 1941 (Embaixador em Inglaterra, 1911-1918; PR, 1923-1925)
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Os espíritos vagueiam pelos lugares dos respectivos afectos, não pelos cemitérios.
Nascido no palácio de Belém, D. Manuel II vagueava pelo jardim e parou junto ao gradeamento olhando o Tejo que naquele dia estava azul. Como sempre, cruzara-se com quem não o via nem sequer o sentia mas, desta vez, foi ele próprio que sentiu que quem estava a seu lado também se encontrava nessa tal outra dimensão, a volátil…
MTG - Creio, Majestade, que, finalmente, podemos conversar sem que rebente algum escândalo político.
R - Ah! Senhor Embaixador, sim, finalmente. Mas ao Senhor também coube a amarga tarefa de chefiar este Estado. Tratá-lo-ei por Presidente e não mais por Embaixador.
MTG - Sim, amarga tarefa, essa, a de se ser Chefe de Estado constitucional em Portugal. Constitucionalmente, nada se pode fazer mas, afinal, é ao Chefe de Estado que todas as explicações são exigidas.
R - Exacto! Mas mais vale assim do que o tratamento dado aos déspotas em final de carreira a quem cortam o pescoço. E nem sequer foi preciso a Luís XVI de França ser déspota – que nem sequer o foi de modo evidente - para o «despentearem».
MTG – O Senhor seu Pai não era déspota e…
R – O meu Pai nomeou um Chefe de Governo que bulia com os Partidos (tanto monárquicos como com o Republicano) que se consideravam os «donos» do País. Mexeu num ninho de vespas ou, como dizem os brasileiros, «cutucou a onça com vara curta». Desequilibrou um equilíbrio muito instável para tentar sair de um caminho que não levava a lado nenhum e…
MTG - … e aqui estamos nós a recordar situações aparentemente diferentes – uma em Monarquia e a outra em República – para concluirmos que, afinal, o problema português tem mais a ver com as elites do que com o tipo de Regime. Estamos sempre a esbarrar na gestão da «coisa pequena», na falta de grandes rasgos de imaginação, de quem lance o trampolim para o meio do ginásio.
R - … e se alguém o faz, logo os medíocres se assanham em denegrir essa iniciativa.
MTG – Exactamente, Majestade! O nosso problema fundamental é a mediocridade polvilhada de inveja. Sacrificam-se os homens em nome de fins históricos apregoados como sublimes e, afinal, esses fins encontram-se ao nível das couves e das batatas a que os arautos da História se dedicam mal saem dos focos que inundam a ribalta. O juízo moral que incide sobre o Chefe e a sua obra é condicionado por essas couves e batatas, é tão fino que dá para lhe chamarmos grosseiro. Foi esse o julgamento que produziu o regicídio, foi esse o julgamento que levou Vossa Majestade
a Ericeira no dia 6 de Outubro de 1910, foi o desespero pela obra imperfeita que me levou a embarcar no navio «Zeus» em Dezembro de 1925 com destino ao norte de África. Porque a minha sorte teria sido igual à de Vossa Majestade caso eu tivesse deixado a iniciativa por mãos alheias. Dá para revermos o que fizemos enquanto passámos pelo «activo»?
R – Sim, claro que dá! Pela minha parte, mantive-me fiel à Carta Constitucional que jurei defender aquando da minha entronização perante as Cortes.
MTG - …ocasião em que baniu a cerimónia do «beija-mão real». Vendo a História ao contrário, apetece perguntar se valeu a pena. Nós, republicanos, achámos bem e houve quem aplaudisse a abolição de um cerimonial anacrónico mas não foi isso que levou a que se desistisse da mudança de Regime; em simultâneo, poderá ter acontecido que alguns monárquicos se sentissem menos vinculados ao Rei.
R – Obediências servis, dispensei-as porque não as tenho como seguras nem compatíveis com a dignidade humana. Isso era tipicamente medieval. Apesar das fragilidades que aponta, acho que fiz bem ao abolir uma cerimónia abjecta aos olhos do século XX. Quando o Senhor assumiu a Presidência, achar-se-ia mais confortável com algo semelhante por parte das Ordens profissionais ou de outros importantões da sociedade civil?
MTG – Claro que não! Mas, em República, não há juras dessas…
R – Pois! Há outras, daquelas que não se fazem às claras.
MTG – Como no tempo da Monarquia.
R - …mais a Carbonária. Mas tanto o Senhor como eu, já não estamos em condições de corrigir a História. Fica a conclusão de que ambos fizemos o melhor que pudemos pelo nosso querido país.
MTG – Tiro também outra conclusão: Vossa Majestade e eu estávamos, afinal, do mesmo lado da barricada, o da democracia, ambos opostos aos totalitarismos.
R – Senhor Presidente, agradeço ter vindo conversar. Acho que ainda temos mais coisas a dizer mas terá que ficar para uma próxima oportunidade pois estão a chegar vivos que querem ver o Tejo.
O Presidente Marcelo chegou-se à grade da varanda para fazer uma selfie com Ursula von der Leien mas não viram os espíritos que se esfumaram.
Mais do que solta, esta é uma conversa improvável
Outubro de 2020
Henrique Salles da Fonseca