A pergunta que pode ter ficado a pairar no espírito de quem leu a «Conversa - 1» poderá ser a da razão pela qual a aldeia nada tem a ver politicamente com o tom vermelho que a rodeou de 1974 até às passadas autárquicas (2017) em que os vermelhos foram destronados pelos rosados.
Então, há que andar um pouco até lá a trás no tempo para perceber que tudo começou pelo fundo do mar.
Como assim? Pois é exactamente como vou contar a quem me ler, Senhoras e Cavalheiros.
Assim como «Deus dá a roupa conforme o frio», também o mar dá as ondas conforme os fundos e os ventos. Ora, sendo os ventos praticamente os mesmos desde a Cova do Vapor até ao Cabo Espichel (salvo pormenores momentâneos), a grande diferença na ondulação resulta dos fundos, todos eles arenosos mas por isso mesmo sujeitos aos efeitos das correntes. E estas, tramadas, não deixam os créditos por mãos alheias sendo sabido que o mar passou a meter-se pela Costa de Caparica adentro quando foi construído o pontão na praia do Tamariz, ali ao Estoril. Problema este que sucedeu ao que foi o quase desaparecimento da Cova do Vapor quando dali foram retiradas as areias (que quase a ligavam ao Bugio) para a construção dos cais do resto do porto de Lisboa. E diz quem sabe que o problema (da Caparica) só será resolvido com o fecho da Golada do Tejo, ou seja, refazendo a ligação da Cova do Vapor ao Bugio. À custa de que novas mudanças? Eu não sei e temo que mais ninguém saiba – a menos que algum modelo já tenha sido ensaiado no LNEC-Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
Todo este relambório (palavra, palavrinha que não sou professor de hidráulica e só sei o que me contaram os antigos) para dizer que as gentes desta costa há muito que andam à procura da serenidade dos elementos para que possam «ganhar a vidinha». E é da faina diária que cuidam, tudo o resto é acessório ou quase. Peixe, é o «pão deles de cada dia» e tentam pescá-lo nas melhores condições possíveis, como se compreende.
Vai daí, é sabido que frente à Costa de Caparica o mar nem sempre é tão benigno como pescadores e turistas gostariam e lá para as bandas da Aldeia do Meco pior ainda. Mas, a meio do caminho, há uma mudança importante nos fundos que passam de irregulares (com fundões e correntes extravagantes) a lisos e, em consequência, com o mar a apresentar uma ondulação regular, previsível e, diria mesmo, serena. Bom mar para banhista e determinante para a qualidade de vida de quem se dedica à pesca.
E como os antigos já sabiam disto, vai de fazerem umas palhotas nesta praia para poderem ir ao mar com a calma conveniente em vez de correrem perigo de vida nos outros locais desta mesma costa. Passavam então os anos 20 do século XX. Não esquecer que a faina se fazia (e continuaria a fazer por muito tempo) à força dos braços humanos agarrados aos remos como nos tempos megalíticos ou de Napoleão.
Mas se aqui se pescava, era na Caparica que se vendia o peixe pelo que a dúzia de quilómetros de praia tinha que ser percorrida diariamente por quem se dedicava ao comércio. Não havia estrada útil por cima da falésia e mesmo que houvesse, seria mais longa e não haveria dinheiro para pagar o transporte de carro ou sequer de carroça. Solução? A butes e pela praia. De preferência pela areia molhada que sempre é mais rijinha. Da Caparica, as mulheres (os homens andavam ao mar) traziam à cabeça (as mãos eram para dar aos filhos que se lhes colavam às saias) as precisões que os pescadores lhes encomendavam; daqui para a Caparica ia o peixe para o mercado. Lota? Qu’é isso? Se a havia, passavam-lhe à margem.
Os filhos nasciam na Caparica mas assim que andavam ficavam na praia à volta das palhotas e as mulheres escalavam-se nos cuidados ao «rancho» da criançada. Até que umas passaram a ficar e outras a ir e vir. E as palhotas começaram a ganhar maior solidez com barrotes que vinham da Mata dos Medos já puxados por uma ou outra mula falésia a baixo por vereda de metro e meio que os ecologistas hoje proibiriam.
Felizmente para a aldeia assim nascente – e para Lisboa na época dos primeiros assentamentos – naquela época não tinham ainda nascido as mães dos actuais ecologistas. E Portugal fez-se sem eles.
Julho de 2019
Henrique Salles da Fonseca