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Na aldeia, os cães têm um elevado estatuto mas, mesmo assim, algumas coisas os distinguem dos humanos. Por exemplo, os cães andam quase sempre com as mãos no chão enquanto os humanos só de vez em quando, em especial depois duma noitada; os cães são alimentados pelos humanos e não o contrário; os cães nunca votaram mas há humanos que o fazem, uns mais do que outros desde o quase nunca até ao quase sempre – e como a aldeia é na praia, creio que a ida às urnas depende muito da maré. A maré dá peixe, há dinheiro, há voto; a maré não dá peixe, não há voto para ninguém. Encravada em «terra do dogma vermelho», a aldeia não é dessa côr (passa muito pela côr parecida mas sem dogma) pelo que os da militância férrea há muito que a desprezam e, vai daí, não os vêm buscar para os levar a votar. Ainda se enganavam e levavam os cães…
E voltando aos canídeos, este ano, à minha chegada à aldeia, a grande novidade foi a «comissão de recepção» que era composta pela “Nina”, pelo “Tufa” e pelo “Lucky”. Porquê novidade? Porque nos anos anteriores não seria hora de eles andarem a cheirar pelo parque de estacionamento onde deixo o meu carro. Mas desta vez, também novidade, a “Nina” cumprimentou-me cheirando-me a mão que lhe apresentei e abanou o rabo. O “Tufa” e o “Lucky” cumprimentaram-me como sempre fazem quando apareço quer me tenham visto há cinco minutos, na véspera ou há um ano, com simpatia ao modo canino. O “Lucky” envelheceu e disseram-me depois que o “Tufa” está surdo mas que continua a ladrar à Lua cheia. O “Amarelo” teve que ser posto a dormir porque estava em grande sofrimento e o “Lake”, que tanto gostava de furar as ondas na praia à compita com o dono, acordou morto. Ninguém ainda me falou dos canzarrões que antigamente viviam no parque de estacionamento mas, na verdade, levaram sumiço. Não eram de ninguém, eram de toda a aldeia, eram os verdadeiros guarda-nocturnos contra forasteiros de intenções duvidosas como os cães tão bem sabem farejar. Devem ter emigrado para a outra ponta da aldeia onde os restaurantes têm ementas mais variadas. E, para além do mais, em Portugal vigora a lei do livre estabelecimento e lá na outra ponta também deviam estar precisados de renovar o quadro de guarda-nocturnos. Agora percebo por que é que a «comissão de recepção» estava no parque de estacionamento - os grandelas tinham sumido.
E chega de canzoada!
Amanhã trato dos bípedes.
Julho de 2019
Henrique Salles da Fonseca